terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Sombras antigas na arqueologia portuguesa

Muito recentemente e a propósito da indigitação para o Conselho de Estado dos novos representantes dos partidos com assento parlamentar, deparei numa entrevista dada ao jornal IONLINE por Domingos Abrantes, histórico dirigente do PCP do tempo da clandestinidade, mais conhecido pela rocambolesca fuga de Caxias no carro blindado de Salazar, (http://www.ionline.pt/316582) com uma referencia a factos relacionados com o agente da PIDE, Farinha dos Santos, identificado pelo entrevistado como “antigo director do Museu do Carmo”. Apesar de imprecisões e confusões de datas na narrativa, Abrantes só pode estar a referir-se ao arqueólogo Manuel Farinha dos Santos que, como todos os arqueólogos da minha geração sabem, foi agente da polícia política pelo menos até final dos anos 50, tendo mantido ligações com aquela instituição até ao 25 de Abril, como professor (de História?) da respectiva “escola”, localizada em Sete-Rios, em instalações hoje já demolidas.

Naturalmente, hesitei um pouco em chamar este assunto para este “blog”, não só para evitar eventuais e compreensíveis melindres de terceiros (familiares ou discípulos próximos) mas também porque, tendo conhecido a pessoa em causa e trabalhado num sítio a que o seu nome está associado (Gruta do Escoural) isso me poderia limitar o direito de o fazer, pelo menos do ponto de vista ético. Apesar das dúvidas acabei por considerar que afinal o “assunto” existe (aí está a entrevista recente a comprová-lo, não valendo a pena esconde-lo debaixo do tapete)  e que apesar de marginal e certamente muito sombrio, a sua clarificação sem complexos (de direita ou de esquerda) e sem segundas intenções justicialistas, pode ter interesse para as memórias da arqueologia portuguesa das últimas décadas do Século XX.

Conheci pessoalmente o arqueólogo Manuel Farinha dos Santos (1921-2001) a partir do início dos anos 80, dadas as minhas funções no então IPPC. No âmbito da preparação de uma nova publicação sobre um sítio que o mesmo estudou (Gruta do Escoural) e a cuja descoberta em 1963 ficará para sempre associado, debrucei-me recentemente sobre a sua obra e o seu percurso arqueológico o que me permitiu destacar o seu papel fundamental, ainda que sob orientação do Prof. Manuel Heleno, para o salvamento daquela Gruta então directamente ameaçada pela laboração de uma pedreira. No entanto, deu para perceber da leitura da documentação e da recolha de alguns testemunhos locais, que a “autoridade” que lhe advinha da sua anterior “experiência profissional”, terá sido um factor determinante na sua decisiva intervenção no caso do Escoural, numa operação decidida e concretizada com rapidez, rigor e total eficácia. (“Escoural, uma gruta pré-histórica no Alentejo”, António C. Silva, Évora, 2011) Mas, à parte essa mera conjetura, nada do seu passado pré-arqueológico me pareceu relevante evocar nos textos que dediquei às descobertas do Escoural. Da mesma forma, também se compreende e aceita que o meu colega João Luis Cardoso, sucessor de Farinha dos Santos na cadeira da Academia Portuguesa de História e seu testamenteiro arqueológico, tenha evitado abordar aquela sua faceta nos textos biográficos que lhe dedicou após a sua morte. Mas se compreendemos e aceitamos a omissão, já pode ser mais difícil admitir algum enviesamento factual que parece subjacente à alusão, não explicada, à injustiça “nunca totalmente ressarcida de todos os desgostos sofridos” resultantes do seu afastamento de um cargo público em 1974… (Cardoso, 2001,” In Memoriam”, O Arqueólogo Português, S.IV vol. 19). Com efeito e como também é público, Farinha dos Santos, foi preso na sequencia do 25 de Abril, muito possivelmente por estar ainda ligado à DGS como professor e eventualmente indiciado por alguns factos relacionados com a sua antiga actuação como inspector da PIDE. Mas ao contrário de muitos outros agentes, uns porque simplesmente acabaram por não ser detidos, outros porque fugiram na primeira oportunidade, Farinha dos Santos permaneceu em custódia durante cerca de dois anos, tendo sido um dos últimos presos relacionados com os processos da PIDE a ser libertado (a comunicação social da época chegou a noticiar a apresentação de um pedido de Habeas Corpus relacionado com a sua situação).

Mantive alguns contactos com Farinha dos Santos, alguns anos depois quando assumi responsabilidades de gestão da actividade arqueológica no Departamento de Arqueologia do IPPC e este arqueólogo, na sequencia da retoma de trabalhos de campo na Gruta do Escoural (1977) com Jorge Pinho Monteiro e Mário Varela Gomes, (meus companheiros do estudo da arte rupestre do Vale do Tejo) ali se dirigia nos anos 80 para tratar do das autorizações para a escavação do vizinho povoado calcolítico. Recordo um homem algo abatido pelas sequelas da vida mas aparentemente pacificado com o seu passado, falando abertamente da sua readmissão na função pública por decisão de Vitor Alves e do Conselho da Revolução e do generoso apoio que estava a ter por parte da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo (“comunista”, como ele então não deixou de frisar) para as escavações do Escoural.

Não fora, pois, a entrevista de Domingos Abrantes e o tema não me ocorreria. Ainda assim, convirá, com os poucos elementos que disponho, corrigir e contextualizar os eventos narrados pelo agora conselheiro de Estado. À data dos mesmos, Setembro de 1959, Farinha dos Santos, estava a terminar a sua licenciatura em História na Faculdade de Letras certamente como aluno “voluntário” (actual estatuto do “estudante-trabalhador”). Sabemos que atraíra a atenção do Prof. Manuel Heleno que o convidou no final desse mesmo ano para seu 2º Assistente na cadeira de Arqueologia. Apesar de ter regido durante alguns anos várias cadeiras em Letras, Farinha dos Santos acabaria por optar por carreira diferente e frequentar o curso de conservador de museus que lhe daria acesso à direção do Panteão Nacional em 1968. Não encontro referencias à data em que terá terminado a sua carreira como “agente ou inspector” da PIDE. Entre 1954 e 1956, segundo João Luis Cardoso, encontra-se na Índia Portuguesa ao serviço do Ministério do Ultramar, mas nada é nos é dito sobre as funções aí efectivamente exercidas. De qualquer modo a referencia de Abrantes às funções como Director do Museu do Carmo é incongruente. Farinha dos Santos só entrou para a Associação dos Arqueólogos Portugueses em 1967, algum tempo depois da aposentação de Manuel Heleno (que não suportava nem a Associação nem o seu Presidente, Afonso do Paço) e apenas viria a ser responsável do respectivo Museu (do Carmo) em 1971, mais de uma década depois destes factos. Ainda assim, pese embora a dúvida razoável quanto ao efectivo envolvimento de Farinha dos Santos nos eventos narrados por Domingos Abrantes, existe alguma plausibilidade nos mesmos, até pelos traços de personalidade subjacentes à descrição. Como recorda Abrantes, perante a provocação que fizera a outro agente sobre os recentes feitos espaciais soviéticos “o Farinha teve uma tirada à intelectual e disse: não foram os russos nem os americanos, foi a humanidade. E o outro pide (ficou) com um olhar esbugalhado e eu safei-me de levar umas trancadas.”

Para além deste testemunho, é também muito conhecida, dada a autoridade política do envolvido, uma referência directa de Mário Soares à actividade de Farinha dos Santos na polícia política e registada na edição francesa do “Portugal Amordaçado” (“Le Portugal bâillonné- un témoignage, Paris, 1972). Esta referencia é retomada em obra posterior de Soares que não conheço mas que encontrei citada na Internet: (ver aqui) 
Passo a citar: “Referindo-se em Um Político Assume-se (Círculo de Leitores/Temas e Debates, 2011) a um período de prisão sofrido em 1949, Mário Soares escreve: “Numa fria madrugada fui interrogado na sede da PIDE por um tal Farinha Santos, meu antigo colega na Faculdade de Letras, que era então agente qualificado da polícia política. Brincando com uma pistola enquanto me interrogava, disse-me: “Se disparar e o matar, nada me acontecerá. Todos dirão que disparei em legítima defesa.” (…)” (p. 54).”   
Aliás, pesquisando esta mesma temática na INTERNET, acabei por deparar com um outro “post” num blog  abrantino com um título curioso (“A PIDE e a Arqueologia”) mas que pouco mais adianta ao que já conhecíamos (http://porabrantes.blogs.sapo.pt/a-pide-e-a-arqueologia-2254616).


Reafirmando que não me move qualquer inapropriada intenção de avaliação ética da pessoa em causa, até porque não está entre nós há mais de uma década, e muito menos qualquer descabido espírito justiceiro para factos há muito prescritos, não posso deixar de compartilhar mais uma nota memorialista que outros colegas da minha geração recordarão, eventualmente com mais detalhe. Em 1972 (?) no decorrer de uma das habituais e brutais “invasões” da polícia de choque à Cidade Universitária, o nosso colega João Ludgero, já então e apesar da juventude, um activo arqueólogo “especialista no Calcolítico” (por oposição aos colegas Paleolíticos...) ficou encurralado no Bar de Letras, tendo acabado ferido com alguma gravidade. Socorrido e trazido em braços para fora da Faculdade por Lindley Cintra, um dos poucos professores que se colocavam ao lado dos alunos, acabou preso pela polícia que cercava a Faculdade. Ter-se-á entretanto formado uma teia de cumplicidades arqueológicas, que terminou com a rápida libertação do João Ludgero, segundo consta, graças à intervenção pessoal de Farinha dos Santos, então Presidente da Secção de Pré-história da Associação dos Arqueólogos Portugueses.

ADENDA (19 de Abril de 2017)




Graças a Gonçalo Pereira, acrescenta-se a este post um LINK directo para o Arquivo Mário Soares ("Casa Comum- Fundação Mário Soares), que dá acesso a um curioso documento, um panfleto dactilografado, anónimo e não datado, mas que pelo contexto se poderá situar no início dos anos 60 (talvez posterior a 1963, pois há já uma referencia à "arte das cavernas", especialidade que viria a dar nome a Farinha dos Santos após as descobertas do Escoural  de1963 e 1964). Intitulado "Um exame de Arqueologia", nele se parodia um exame ou interrogatório feito pelo "sapientíssimo Farinha, da doutíssima PIDE", como membro de um júri presidido por Manuel Heleno (o "Porca de Murça") e coadjuvado por "sua burrência", o filósofo Moreira de Sá ("que também é da PIDE mas nunca percebeu..."). Curiosamente, no interrogatório Farinha pretende confirmar que o examinando (ou preso) é "funcionário do Neolítico" e que como tal conspira contra a "Pedra Lascada e contra o Quaternário". O exame termina com Vivas ao Paleolítico e a Salazar "o nosso Troglodita-mor". Quem escreveu o panfleto era certamente aluno de História.
Uma cena envolvendo a pistola do interrogador, parece remeter para uma descrição de um interrogatório feito a Mário Soares na António Maria Cardoso e que este cita no seu livro "Portugal Amordaçado". O autor seria alguém próximo ou conhecido de Soares?

domingo, 20 de dezembro de 2015

A REINVENÇÃO DO CASTELO DA LOUSA (2)


Desde ontem, 19 de Dezembro, existem novos e fortes motivos para uma visita à margem esquerda do Guadiana e mais concretamente ao Museu da Luz. Com curadoria de Pedro Pacheco, o arquitecto autor do projecto do premiado museu e que, felizmente, tem continuado a colaborar regularmente com a instituição, está ali patente ao público uma exposição sobre o Castelo da Lousa. Ainda que não ignorando necessariamente a componente arqueológica, presente em materiais e documentação das várias fases de estudo e escavação, a exposição aborda a partir de diferentes perspectivas, a memória do sítio hoje afundado pelas águas do Alqueva, agora simbolicamente assinalado por uma simples cota topográfica. Desde logo pela perspectiva do arquitecto que nas ruínas (materiais, métodos de construção, escolha do lugar...) se inspirou para a concepção do próprio Museu. Mas também pela imaginação do escultor Francisco Tropa que evoca na sua proposta as lucernas/candeias de azeite, romanas, aqui expostas junto do antigo "lar" identificado no antigo "atrium" da Lousa. E ainda pela visão dos fotógrafos Duarte Belo e José Manuel Rodrigues, que em diferentes momentos, fixaram através das suas objectivas o contexto paisagístico do monumento e do sítio hoje desaparecido. Resta ainda o testemunho oral (" voz aos lugares") recolhido em video e projectado nas paredes do Museu, uma série de depoimentos baseados na memória das vivências do lugar pelos arqueólogos, pelos artistas ou simplesmente por aqueles que, naturalmente e desde miúdos, conheciam e frequentavam o lugar desaparecido quase há década e meia e agora evocado.


Museu da Luz, 19 de Dezembro de 2015
Castelo da Lousa - maquete produzida pela equipa de Pedro Pacheco
"Voz aos lugares"- depoimento do Eng. Joaquim Bação, proprietário do castiço restaurante de Mourão "Adega Velha" e sobrinho do Dr. Joaquim Bação Leal, o estomatologista mouranense, co-responsável com Afonso do Paço pelas escavações dos anos 60 no Castelo da Lousa
As fotos de José Manuel Rodrigues (2002)

Artefactos romanos recolhidos na Lousa e fotos (1996) de Duarte Belo
Castelo da Lousa_ a documentação arqueológica (janela sobre o passado)
Castelo da Lousa_ artefactos metálicos (fíbulas) e cerâmicos

A mesa da memória_ material editado sobre a Lousa

Maquete_ nova perspectiva
A "re" visão de Francisco Tropa: a Luz e o Lar
Castelo da Lousa_ documentação arqueológica: os "velhos" diapositivos ou "slides"

Museu da Luz_ um espaço de memórias

O Castelo da Lousa, sob as águas do Alqueva. Imagem rara, obtida cerca de 10 anos após o afundamento da estrutura, numa iniciativa promovida e documentada pelo Museu da Luz


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A REINVENÇÃO DO CASTELO DA LOUSA



No próximo Sábado, 19 de Dezembro de 2015, o Arquitecto Pedro Pacheco, autor do projecto de arquitectura do premiado MUSEU DA LUZ, irá apresentar a público naquele Museu uma exposição sobre o "Castelo da Lousa", o sacrificado sítio romano localizado junto ao Guadiana no território da velha Aldeia da Luz. Mas ao contrário do que sucedeu com a aldeia, desmantelada por razões ecológicas e psicológicas, casa a casa, rua a rua, o "Castelo da Lousa" viria a ser objecto de uma complexa e pouco usual intervenção de protecção, precavendo a possibilidade de num futuro incerto e distante, já sem o lago do Alqueva (?) os nossos descendentes poderem decidir repôr à vista, - eventualmente numa paisagem lunar- o que restar das ruínas de há 2 100 anos atrás.

Desenganem-se porém os arqueólogos. Não se trata de uma exposição de "arqueologia", embora essa dimensão, como não poderia deixar de ser, também esteja presente. Artistas plásticos, arqueólogos, historiadores, mas também habitantes da velha aldeia vizinha,  à sua maneira e com a sua sensibilidade e experiência falam de um sítio que já é apenas memória ou, quanto muito, restos de objectos descontextualizados ("fiapos da memória" como lhe chamava o Benjamim Pereira, o etnólogo responsável pelo excelente projecto de museologia do Museu da Luz) e, por consequência, porque no sítio em causa aparentemente não existe nada, no título da exposição temos uma coordenada geográfica, um ponto no espaço que assinala algo que já não se vê mas que persiste no nosso imaginário.



Tendo dirigido todo o processo de intervenção preventiva neste sítio tão especial, desde os primeiros diagnósticos arqueológicos em 1996 até à deposição do último saco de areia de proteção (2002- ver a propósito http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/08/lousa-o-fecho-do-tempo-por-razoes-que.html ) é sempre com alguma emoção que revivo processo tão rico e intenso, envolvendo tantos e tão variados personagens, alguns já entretanto desaparecidos. Desde a equipa da ARKHAIOS dirigida pela Ana Gonçalves (tal com a "ERA, Arqueologia", uma das primeiras empresas de Arqueologia do país, ambas formadas por jovens arqueólogos que haviam trabalhado comigo, como tarefeiros, no antigo Serviço Regional de Arqueologia), passando pelos investigadores da Universidade de Coimbra, sob a coordenação de Jorge de Alarcão (que com Adília Alarcão haviam estudado nos anos 60, os materiais das escavações de Afonso do Paço e Joaquim Bação Leal) e de Pedro Carvalho.
Uma das mais interessantes novidades das escavações da ARKHAIOS_ a identificação da pedreira romana original 

Escavações da ARKHAIOS
Como poderei esquecer o ter conseguido que Jürgen Wahl,voltasse de novo a estudar o Castelo da Lousa, ele que o tinha divulgado internacionalmente com o seu magnífico estudo dos anos 80. Infelizmente, este arqueólogo faleceu há alguns anos sem que os resultados dos seus novos estudos tenham sido publicados mas muito recentemente a sua viúva (Regula Wahl, também ela arqueóloga actualmente ligada ao projecto de arqueologia mineira romana de Três Minas, Jales) ofereceu ao Museu da Luz toda a documentação  de Jürgen relacionada com a Lousa.

Jürgen e Regula Wahl, em Outubro de 2001, na Lousa 

Ainda no que respeita à Arqueologia e a este projecto também não posso esquecer a estreita colaboração com a Universidade da Beira Interior que através do meu velho amigo Martin Hock actualizou, com milimétrica precisão, os levantamentos arquitectónicos. É uma lista enorme de colaborações, até porque ao nível da divulgação houve uma especial preocupação desde os primeiros momentos, não só para proporcionar enquanto era possível a visita ao sítio (melhorando caminhos, instalando passadiços, etc.. e nisso teve um papel preponderante o meu directo colaborador Zé Perdigão) mas também para produzir todo um conjunto de material (CDROM, Video, publicações) que minimizasse a grande "maldade" que se anunciava. O afundamento do monumento. Quando se começou a levantar a hipótese da sua protecção, naturalmente com muitas dúvidas e hesitações técnicas e éticas, foi decisiva a colaboração com o prestigiado LNEC, onde tive todo o apoio de outro velho amigo (desde os tempos dos estudos sobre a conservação dos monumentos megalíticos no Alentejo), o Delgado Rodrigues que coordenou a equipa que produziu o respectivo estudo e cujas conclusões foram decisivas para o projecto posteriormente concebido pelo malogrado Eng. Diamantino Saraiva. (ver a este propósito:  https://www.academia.edu/6072576/Reburying_the_archaeological_structures_in_the_Alqueva_Project )


O Castelo da Lousa, antes do início dos trabalhos de protecção. A sinalética e o passadiço era já da responsabilidade da EDIA

O início dos trabalhos de proteção


A cobertura do monumento em fase avançada, Fevereiro de 2002, por altura do fecho das comportas de Alqueva.

Para registo e memória futura, aqui transcrevo a Nota de Imprensa que preparei para os serviços de comunicação da EDIA, em 22 de Outubro de 2001

Protecção do Castelo da Lousa

            Conforme programado, iniciaram-se recentemente os trabalhos preparatórios com vista à concretização da "selagem e protecção" das ruínas do Castelo da Lousa, operação já adjudicada e que deverá estar concluída quando se iniciar a formação do Regolfo de Alqueva. Por motivos de segurança a partir de agora as visitas a este sítio arqueológico, já de si de acesso difícil em época de invernia, ficam fortemente condicionadas.

Singular monumento da época romana, o impropriamente chamado "Castelo da Lousa", está localizado a 3 quilómetros da Aldeia da Luz na margem esquerda do Guadiana entre as cotas 120 e 130. A estreita relação com o Rio, factor que terá sido determinante na escolha do local para a sua implantação, acarreta  também a inevitabilidade da próxima submersão pela Barragem do Alqueva, hipótese que estava já presente quando nos anos 60 Afonso do Paço e Bação Leal aí realizaram as primeiras escavações. Àqueles investigadores se deve não só o reconhecimento do interesse arqueológico do local, desde logo interpretado como "fortim romano", mas também a descoberta das suas ainda imponentes estruturas arquitectónicas graças a sucessivas campanhas de escavação realizadas entre 1963 e 1970. A teoria da sua função militar viria, no entanto, a ser contestada nos anos 80 pelo arqueólogo alemão Yurgen Wahl que aí procedeu a novos levantamentos e estudos. Para este arqueólogo ligado à Universidade de Colónia e que tem vindo a colaborar com a EDIA nas investigações mais recentes, a estrutura arquitectónica do monumento corresponderia a uma "villa" ou grande casa fortificada relacionada provavelmente com a actividade agro-pecuária. No entanto, Yurgen Wahl, em artigo importante ainda hoje só disponível em alemão confirmou as datações já antes avançadas pelos investigadores portugueses. O monumento fora construído em meados do Século I antes de Cristo, nos finais da época Republicana, tendo sido abandonado cerca de um século depois, já em pleno Império.

            Dada a particular importância deste monumento que durante muito tempo partilhou com o "Cromeleque do Xerêz" especial preocupação dos arqueólogos face ao Empreendimento de Alqueva, o mesmo viria a ser objecto a partir de 1997 de um conjunto de acções específicas no quadro do Plano de Minimização dos Impactes Arqueológicos do Alqueva elaborado pela EDIA e aprovado pelo Ministério da Cultura. Destacam-se antes de mais todo um conjunto de novas escavações arqueológicas realizadas por uma firma de Évora a ARKHAIOS com a colaboração do Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras de Coimbra, que nos dão hoje uma visão muito mais alargada do complexo arquitectónico original. Ainda que em termos de informação genérica (cronologias, espólios e funções) não se verifiquem grandes novidades em relação aos dados já conhecidos, a zona com ruínas reconhecidas aumentou sensivelmente para o dobro colocando novas questões interpretativas. Esta oportunidade foi igualmente aproveitada para se realizarem novos levantamentos topográficos, adjudicados à Universidade da Beira Interior e, mais recentemente, prospecções geofísicas. Para lá de estar previsto o apoio à publicação científica dos resultados das novas escavações, actualmente em vias de conclusão, a EDIA prepara desde já a execução de meios museográficos com vista ao futuro tratamento da memória do Castelo da Lousa, tema a que será dado um destaque especial no Museu da Aldeia da Luz, já em construção na nova aldeia. Referimo-nos à produção de maquetes das ruínas, bem como de um CDRom interactivo que a par de outra informação disponibilizará um largo conjunto de imagens panorâmicas (360º) do monumento e da paisagem envolvente, tal como ele se encontrava na fase final das escavações.

            Embora apenas decorresse das condicionantes impostas pelo processo de Avaliação de Impactes Ambientais, a minimização de impactes através do registo arqueológico, ou seja, através de novas escavações, situação comum a outras dezenas de sítios que serão submersos pelo Alqueva, no caso do Castelo da Lousa considerando o seu especial significado a EDIA tomou a iniciativa de ir mais além. Solicitado ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil um estudo sobre os efeitos da submersão e a viabilidade de medidas de salvaguarda, os técnicos do LNEC concluíram que, apesar dos graves problemas de conservação estrutural detectados, era possível aumentar a capacidade de resistência das ruínas à submersão se fossem tomadas algumas medidas preventivas. A busca de uma solução técnica adequada não se revelou fácil nem consensual, tendo em conta a total ausência de experiências semelhantes mesmo a nível internacional, e a localização do monumento numa escarpa de xisto sobranceira ao Rio e delimitada por duas ribeiras muito encaixadas. Depois de abandonada uma primeira solução do tipo "enrocamento", quer pelas dificuldades de execução quer pelas implicações negativas sobre as novas áreas arqueológicas entretanto descobertas, viria a ser aprovada pelo IPA e pelo IPPAR, uma solução com menos impacte arqueológico e que passa pela cobertura do monumento por uma estrutura formada por alguns milhares de sacos de geotêxtil, resistentes à água e preenchidos por areia. O projecto é da responsabilidade da COBA tendo a obra sido adjudicada à firma CONDURIL, pelo valor de 47 600 000$00,* com um prazo de execução previsto de 2 meses.
_______________ 

* cerca de 240 000 €

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015




Foz do Enxarrique e Cobrinhos

Nas últimas semanas, por razões diferentes mas ambas positivas, o Paleolítico do Ródão voltou a ser notícia. No final de Outubro graças a um link divulgado na ARCHPORT (https://www.academia.edu/17273721/Cobrinhos_A_New_Mousterian_Site_in_Vila_Velha_de_R%C3%B3d%C3%A3o_Portugal_) era dado a conhecer um novo e invulgar sítio Mousteriense (Paleolítico Médio), próximo do sítio da Foz do Enxarrique e descoberto por Francisco Henriques no âmbito dos trabalhos de instalação de uma nova fábrica de papel naquela região. A notícia remetia-nos para um poster apresentado em reunião científica nos Estados Unidos, que aqui reproduzimos e assinado por Telmo Correia, João Caninas, Emanuel Carvalho, Olívia Figueiredo, Francisco Henriques, Daniela Maio, Cátia Mendes, David Nora, Eduardo Paixão, André Pereira e Luis Raposo. Desta vasta equipa destacamos naturalmente o Francisco Henriques, um rodense de gema apaixonado pela arqueologia desde que, praticamente como adolescente começou a acompanhar os estudantes do GEPP que, a partir da velha pensão "Castelo" do Porto do Tejo, se dedicaram num primeiro momento à Arte Rupestre e após a construção da barragem do Fratel, ao estudo do riquíssimo Paleolítico da região. Recordemos que a descoberta do Enxarrique, no decorrer de uma sortida piscatória, já se ficara a dever nos anos 70 ao Francisco Henriques que, pese embora a sua paixão pela Arqueologia e pela Etnologia acabaria por seguir uma carreira profissional no âmbito da enfermagem, de que entretanto se aposentou. Destacamos também o João Caninas, sobrinho (neto?) da dona da referida "Pensão Castelo",  e que, pese embora o curso de engenharia electrotécnica, também se dedicaria de corpo e alma à cultura e ao ambiente (chegou a integrar o gabinete de Teresa Patrício Gouveia quando esta foi Secretária de Estado do Ambiente), sendo um dos mais antigos "empresários" portugueses no domínio das avaliações de impactos, com especial incidência na área patrimonial. Por fim uma especial referencia ao Luis Raposo, meu velho colega das lides do Ródão, desde sempre muito focado nos estudos do Paleolítico da Região, que nunca abandonou mesmo quando a prioridade era o levantamento da Arte Rupestre ameaçada pela Barragem do Fratel. E foi graças a essa teimosia que se descobririam sítios que são hoje referencia internacional, como Vilas Ruivas ou o Monte do Famaco, para já não falar do Enxarrique e, por fim em Cobrinhos. Esta última, sem ter as características do Enxarrique (falta-lhe a "fauna" e aparentemente não se encontra "in situ"), parece ser um sítio muito interessante atendendo á imensa recolha de materiais líticos que proporcionou. Com efeito, a circunstancia de ter sido identificada no contexto de importantes obras, permitiu a congregação de meios e métodos pouco vulgares. Dada a urgência da situação e o facto de se comprovar não estar "in situ",  para além das recolhas sistemáticas de superfície (método que no passado ensaiáramos no Monte do Famaco, na sequencia de lavra mecânica) o terreno foi quadriculado, tendo os sedimentos sido recolhidos à máquina (quadrado a quadrado) e posteriormente crivados para recolha dos materiais líticos trabalhados. O que permite agora uma abordagem estatística com resultados certamente interessantes.

A notícia da Foz do Enxarrique é bastante mais recente. Também graças à ARCHPORT tomámos conhecimento que na semana passada, entre quase centena e meia de candidaturas, o projecto de Museologia e Educação no Sítio Arqueológico da Foz do Enxarrique, havia recebido uma Menção Honrosa na 6ª edição do Prémio Ibero-Americano de Educação e Museus. Trata-se de uma candidatura assumida pela Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão em parceria com o Centro Português de Geo-História e Pré-História, preparada e executada por uma vasta equipa coordenada pelo Luis Raposo mas em que participaram outros antigos estudantes que no Ródão e mais concretamente no Enxarrique tiveram o respectivo tirocínio, como o Silvério Figueiredo, líder ddo referido Centro de Geo-História. Como antigo responsável por escavações no Enxarrique (julgo que, no âmbito da partilha de responsabilidades entre os membros do GEPP que foram ficando pelo Ródão, me coube iniciar as primeiras escavações neste sítio...) não poderia deixar de aqui deixar este registo. Aqui ficam também alguns documentos associados:

Cobrinhos, A New Mousterian Site in Vila Velha de Ródão (Portugal)

1Telmo Pereira, 2João Caninas,2 Emanuel Carvalho, 3Olívia Figueiredo,4 Francisco Henriques,3 Daniela Maio,2 Cátia Mendes,3 David Nora, 1Eduardo Paixão, 2André Pereira, 5Luis Raposo

1- ICArEHB - Interdisciplinary Center for Archaeology and Evolution of Human Behavior, Universidade do Algarve | 2- EMERITA, Empresa Portuguesa de Arqueologia, Uni. Lda. | 3- NAP – Núcleos dos Alunos de Arqueologia e Paleoecologia, Universidade do Algarve | 4- Associação de Estudos do Alto Tejo | 5- Museu Nacional de Arqueologia

https://www.academia.edu/17273721/Cobrinhos_A_New_Mousterian_Site_in_Vila_Velha_de_R%C3%B3d%C3%A3o_Portugal_





 PROJETO DE FOZ DO ENXARRIQUE RECEBE MENÇÃO HONROSA NO VI PRÉMIO IBERO-AMERICANO DE EDUCAÇÃO E MUSEUS




Foz do Enxarrique musealizado...

http://museunacionaldearqueologia-educativo.blogspot.pt/2015/12/foz-do-enxarrique-em-vila-velha-de.html

Referências anteriores nas Pedras Talhas:

http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/06/glandes-plumbeae-para-os-nao.html

http://pedrastalhas.blogspot.pt/2014/10/o-paleolitico-do-rodao-as-portas-


do.html

Prepearativos para a primeira campanha de escavações na Foz do Enxarrique (1982). Limpeza do terreno e quadriculagem
Enxarrique_ numa fase já bastante mais avançada da escavação, com remoção à maquina de níveis sedimentares estéreis




O terraço do Monte do Famaco, um sítio atribuído ao Acheulense (Paleolítico Inferior) onde se efectuaram no final dos anos setenta recolhas sistemáticas de superfície e sondagens pontuais.



A Maria João Coutinho numa das sondagens do Monte do Famaco, no final dos anos 70.

O Francisco Sande Lemos no Monte do Famaco ( e o seu célebre "Martelo Ge Geólogo" que quase nos levou aos calabouços do Ródão, quando um GNR pouco dado a trabalho científico, o considerou com o "arma de guerra"...)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015




Guadalupe-Tourega: uma jornada memorável






Desde que o Francisco Bilou propusera à União de Freguesias da Tourega e de Guadalupe, a edição do manuscrito do Pe Manuel Vidigal, que se assumira o compromisso de convidar para a apresentação o Professor Vitor Serrão, conhecido Historiador de Arte e meu antigo colega de curso. Não foi fácil, entre tantos compromissos do Vitor encontrar uma data disponível. Mas finalmente, acabado de chegar de uma conferencia no Brasil, Guadalupe e Valverde tiveram a honra de mais uma sua visita. Naturalmente não é a primeira vez que o Vitor Serrão anda por estas paragens, que há muitos anos teve oportunidade de descobrir na companhia do saudoso Mestre Túlio Espanca e ainda recentemente por aqui andou revisitando locais que faziam parte do tema do seu mais recente livro “Arte, Religião e Imagens em Évora, no tempo do Arcebispo D.Teotónio de Bragança, 1578-1602”. Mas, numa terra patrimonialmente tão rica como esta, cada passagem pode ser oportunidade para novas recolhas, novos dados para o sempre inacabado puzzle da História. Iniciámos a memorável jornada pela visita à Igreja de Guadalupe, onde a atenta observação dos frescos (retábulo, capela mor. sacristia e nave abobadada) em conjunto com o Francisco Bilou proporcionou a Vitor Serrão novas reflexões e considerações que de imediato divulgou na sua página do Facebook e que, com a devida vénia abaixo transcrevo. Partimos depois para a Tourega, onde se nos juntou entre outros, o P. Fernando Marques, Pároco local, e por coincidência nosso antigo colega de História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Curso de 1970-1975). Antes da visita à Igreja e ao seu retábulo que Vitor Serrão tanto tem elogiado, aproveitando as excelentes condições metereológicas, fomos à redescoberta dos vizinhos lugares santos da Tourega, hoje muito esquecidos e abandonados: a "Fonte Santa" e a Capela de Santa Comba, uma das mártires evocada na Tourega. Sobre estes sítios fala-nos naturalmente o texto do Sèculo XVIII agora editado e sobre o seu significado ideológico teoriza o Prof. Vitor Serrão no importante livro já referido. Tudo leva a crer que a importância que estes antigos lugares de culto adquiriram no final do século XVI, início do Século XVII, quase sempre edificados sobre vestígios da época romana que lhe davam a devida "autenticidade", fizeram parte de um programa ideológico de combate contra o paganismo e a "Reforma", decorrente das instruções concretas do Concílio de Trento (ver a este propósito http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/12/a-padroeira-dos-arqueologos-foi-no.html) Desta visita que não esqueceu a Igreja da Tourega propriamente dita e a actual Igreja Paroquial de Valverde, onde se guardam também algumas das preciosidades da Tourega, como uma antiga tábua quinhentista (muito repintada) e uma magnífica Senhora do Leite, aqui deixamos algumas imagens que incluem também a apresentação do livro, bastante concorrida, que teve lugar no Restaurante O Ricardo.


Francisco Bilou e Vitor Serrão, na Igreja de Guadalupe, 5 de Dezembro de 2015
O P. Fernando marques na Fonte Santa da Tourega
Junto às ruínas da Ermida de Santa Comba

Revisitando o retábulo da Igreja da Tourega
Na nova Paroquial de Valverde, analisando a tábua quinhentista ali guardada.



A Senhora do Leite da Tourega, guardada na Paroquial de Valverde
O Vitor Serrão fazendo a apresentação do livro "Notícias da Tourega em 1736"


A notícia no Diário do Sul



MEMÓRIA DE SÍTIO COM OS FRESCOS DE NOSSA SENHORA DE GUADALUPE
A igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, grande templo rural a cerca de 15 kms de Évora, não longe da estrada nacional 114, nasceu no ano de 1609 por esforço de um grupo de cidadãos, devotos desse culto, que a fizeram erguer, altaneira e imponente, dominando a paisagem alentejana do sítio. Esses mordomos da confraria, responsáveis da obra, que o historiador Túlio Espanca, em 1957,registou para memória futura, foram Manuel Carvalho, Mateus Dias, João da Costa e Pedro Fernandes Pichorro, e em 1615 o templo era solenemente inaugurado pelo vereador mais velho, Diogo Pereira Cogominho, depois de visita do Arcebispo D. José de Melo. Sabe-se que o historiador Manuel Severim de Faria, devoto da Senhora de Guadalupe, era um dos frequentadores do imóvel religioso. A igreja destaca-se na mancha da actual aldeia de Guadalupe: apesar de muito depauperada por obras (em 1964) que a privaram do conjunto de casario de romeiros que a envolvia, e lhe dava por certo uma consentânea nota de pitoresco, a arquitectura mantém a volumetria tridentina, de severo gosto ‘teotonino’, acaso devido ao arquitecto Pero Vaz Pereira, o construtor oficial ao serviço do Arcebispado nesses anos.
Desejo falar da pintura mural e registar as minhas notas da visita recente. Grande interesse têm esses frescos, fruto de sucessivas campanhas, a mais antiga das quais decorou a ousia da capela-mor (cerca de 1612), com os tectos da nave e presbitério, e a mais recente o tecto da sacristia (este, datado de 1639). Sabemos que o ‘retábulo fingido’ da ousia se deve ao pintor José de Escovar, o mais prolixo dos fresquistas activos no aro eborense no início do século XVII. Mas é o conjunto de murais que recobrem o presbitério que maior interesse iconográfico oferece, até por ser praticamente omisso nas descrições do templo (incluindo as do sempre atento Túlio Espanca). Esse tecto inclui nove ‘painéis’ escalonados na estrutura fresquista, com cenas de adoração e milagres de Nossa Senhora do Guadalupe, e dão ênfase a um aspecto relevante da iconografia da Senhora: a remissão dos cativos. É por isso que se vêem orantes genuflexionados com suas correntes de ferro, num outro dois fidalgos de gorjeira encanudada evocando a Virgem, e em dois outros o singular ‘milagre de Belmonte’, o que constitui presença raríssima num programa iconográfico como este.
A lenda do cativo de Belmonte (representada apenas, que eu saiba, numa tela setecentista numa igreja de Penamacor e numa tábua maneirista no Museu de Ponta Delgada) narra a aventurosa saga de Manuel, soldado natural dessa vila beirã, que foi preso pelos mouros em Argel, onde foi feito escravo por um mouro muito avaro. Não deixou nunca de invocar Nossa Senhora da Esperança para o auxiliar e, segundo narra o milagre, a Virgem apareceu ao cativo na véspera do dia de Páscoa e anunciou que iria ser brevemente liberto. De facto, a arca em cujo interior Manuel dormia acorrentado, com o mouro deitado sobre a tampa, elevou-se no ar e desapareceu acima do mar, chegando no sábado de Aleluia a Belmonte, onde a população, à hora da missa, viu chegar a arca com o cativo e também com o seu senhor, que assim se converteria ao cristianismo. Foi erguida no local uma capela dedicada a Nossa Senhora da Esperança e existe em igreja de Penamacor, como disse, uma tela do século XVIII (dada a conhecer em monografia de José Manuel Landeiro), que narra este raríssimo milagre mariano.
Também a historiadora Maria Eugénia Diaz Tenas (2007), segundo me informa Francisco Bilou, relata num artigo seu a partir das crónicas do Mosteiro de Guadalupe uma série de outros milagres alegadamente cultuados nesse mosteiro extremenho e registados pelos peregrinos portugueses que já no século XV demandavam o célebre cenóbio, todos eles ligados às curas de maleitas e à libertação de cativos cristãos. Conhece-se ainda, no tomo VI do ‘Santuário Mariano’ de Frei Agostinho de Santa Maria, uma descrição dos milagres da Senhora de Guadalupe, que é preciso analisar, e tomo nota ainda, da autoria de Pilar González Modino, de um livro recente chamado «La Virgen de Guadalupe como Redentora de Cautivos», que ajudará por certo a deslindar o complexo e raro programa iconográfico pintado na cobertura afrescada da igreja eborense.
Sobre o artista eborense que executou este tecto, em data pouco anterior a 1615, trata-se de um pintor maneirista de limitados recursos, mas com certo sabor, por certo um dos oficiais da ‘escola’ de José de Escovar, mas com estilemas diversos, e que me parece afim ao mesmo autor dos frescos da próxima igreja de São Matias e dos da igreja do Sabugueiro (Arraiolos). Pistas para desbravar neste laboratório vivo que é, sempre, o património artístico alentejano !

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A PADROEIRA DOS ARQUEÓLOGOS


Foi no contexto de uma recente troca de impressões profissional com o Nelson Almeida (o arqueólogo que na Direcção Regional de Cultura do Alentejo, dada a sua formação específica na matéria, se ocupa dos processos que envolvam intervenções de carácter antropológico) que a questão se me colocou. Referindo-me ironicamente, em relação a um caso concreto, à alta probabilidade de atrás de uma sepultura (estruturas que por razões éticas e científicas não se podem truncar), vir sempre outra, complicando e encarecendo de forma inesperada algumas intervenções arqueológicas preventivas, sugeri que o arqueólogo responsável, as esconjurasse invocando se necessário "o santo padroeiro dos arqueólogos”. Foi aí que o Nelson me informou (tal nunca me havia ocorrido) que de facto existe um “santo padroeiro dos arqueólogos”, mais concretamente, uma Santa de seu nome Helena. Fez-se-me então luz, até porque li recentemente com muito interesse e curiosidade a última obra do meu colega e amigo Vitor Serrão  "Arte, Religião e Imagens em Évora, no tempo do Arcebispo D.Teodósio de Bragança, 1578-1602” cuja capa vem ilustrada com um pitoresco detalhe (que acima reproduzo) de uma pintura de Gregório Lopes, proveniente da Sé de Évora e exposta no respectivo Museu de Arte Sacra, intitulada Santa Helena e o milagre do reconhecimento da Vera Cruz. No pormenor em causa, vários cavadores buscam afanosamente relíquias, no caso, da própria cruz de Cristo (aparentemente e tendo em conta a quantidade de “santos lenhos” guardados por toda a Cristandade, parecem ter sido bem sucedidos…).

Ironia à parte, a associação da “arqueologia” com a mãe do Imperador Constantino, (Flavia Julia Helena) acaba por fazer sentido, tendo em conta toda a vasta hagiografia que remete para as suas incessantes “buscas” em torno dos locais da paixão de Cristo e que culminariam com a “descoberta” do “santo lenho” e a construção da Basílica do Santo Sepulcro pelo Imperador Constantino, A pintura de Gregório Lopes remete-nos precisamente para essa mitologia cristã, militantemente recuperada no âmbito da Contra-reforma pós concilio de Trento e que no Alentejo viria a ter grandes impulsionadores, como o Arcebispo D.Teotónio de Bragança, que para além da "identificação" e refundação de sítios do imaginário martirológico eborense, como São Manços, Tourega ou São Brissos, chegou a promover “escavações” no litoral de Sines, em busca das relíquias de São Torpes, a solicitação do Papa Sisto V (1585-1590). Como alguns saberão, estas pesquisas permitiram de facto identificar uma sepultura de onde se recolheram um "casco da cabeça”, uma “pomazinha quebrada de barro” e uma “estampa de pedra preta debuxada”,  relíquias que seriam guardadas religiosamente na igreja matriz de Sines e onde séculos depois Leite de Vasconcelos ainda encontraria no sacrário a tal “estampa”, afinal uma típica placa votiva megalítica… Mas sobre estes assuntos, e as suas implicações ao nível da história da arte, vale a pena voltar com atenção à obra citada de Vitor Serrão, ainda que em minha opinião o conceito de “Arqueologia”,  aí seja usado com excessiva liberalidade…no âmbito cronológico em causa. De facto, de uma maneira geral os historiógrafos da Arqueologia portuguesa, costumam começar a usar o conceito,  ainda com cautela, apenas no final do Século XVIII com a figura do bispo Frei Manuel do Cenáculo.



Para finalizar este "post", referir ainda que, a crer na Internet, o dia de Santa Helena e por consequencia dos arqueólogos, ocorre a 18 de Agosto, e que a referida Santa é ainda a protectora dos "convertidos" e dos "casamentos em dificuldades..."


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

PENEDO DO LEXIM (2)



O meu "post" de ontem, motivado por uma pequena notícia "on line" acabou por ter consequencias inesperadas. O José Morais Arnaud, provavelmente espicaçado pela má qualidade das fotos que divulguei (que eu penso serem "sobras" que conservei das fotos produzidas durante a campanha - de facto, e ao contrário do que hoje acontece graças ao "digital", havia que gerir com parcimónia o nº de fotografias realizadas no campo e ainda mais as respectivas "tiragens" em laboratório) decidiu em boa hora divulgar no "facebook" um interessante conjunto de fotos da campanha de 1975 no Penedo do Lexim, por ele dirigida. Com a devida vénia, a qui reproduzo algumas, com os comentários originais do próprio Zé.



"A equipa de escavação: Além da dona do terreno, identifico, a contar do lado esquerdo, Teresa Júdice Gamito, Pedro Aboim (e a sua lambretta), António Brazão, António Martinho Baptista (?) (?), Inês Albuquerque e Castro, Paraíso Pinto, Isabel Ferreira da Silva e António Carlos Silva, Clementino Amaro, Teresa Marques, Manuel Barreto, e ainda, (em cima do LandRover),João Ludgero Gonçalves,Clara Vaz Pinto, Manuela Martins, Francisco Sande Lemos, e (acocorados em primeiro plano) Rui Parreira, Isabel Costeira e (?).
Que me desculpem as (???), mas tenho preguiça de ir ver ao caderno de campo" (José Morais Arnaud) 



"Os mesmos da anterior, comigo e com o burro da D. Maria. Acima, a "casa" do século XVII que nos servia de base, e, mais acima, toda caiadinha,a casa do proprietário do terreno que nos abastecia de pão, leite, azeite, ovos, galinhas, vinho, etc." (José Morais Arnaud)



"O acesso à frente de trabalho era muito difícil, sendo necessário organizar pequenas cadeias humanas. Na foto, António Carlos Silva, Manuel...,Clementino Amaro, Sande Lemos, e, de costas, Teresa Júdice Gamito." (José Morais Arnaud)


"Trabalhar então neste local era especialmente penoso devido ao fino pó de basalto da pedreira instalada mesmo junto à área escavada, a qual já havia destruido mais de metade do próprio Penedo. Apesar disso, a equipa mantinha a boa disposição ! Na foto reconhecem-se Isabel Costeira, João Ludgero Gonçalves e F.Sande Lemos. Penedo do Lexim (Mafra) 1975." (José Morais Arnaud)

 "Sande Lemos, António Carlos Silva e Rui Parreira simulam a defesa do Penedo contra hipotéticos atacantes." (José Morais Arnaud) 


Isabel Costeira e da esquerda para a direita, Rui Parreira António Brazão e João Ludgero


António Martinho Baptista e Rui Parreira

Clara Vaz Pinto