quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

ANTA GRANDE 2

Anta Grande da Comeda da Igreja (Fev. 2016)

Há muito que o “megalitismo alentejano” está identificado como um recurso patrimonial de enorme potencial turístico-cultural mas, infelizmente, condicionantes complexas têm impedido que essa potencialidade dê frutos visíveis. Apenas  algumas dessas condicionantes: a sua dispersão no território, quase sempre em propriedades privadas, hoje cada vez mais inacessíveis face aos novos modelos de exploração agrária; a falta  de uma estratégia pública de valorização arqueológica desse mesmo património, mesmo dos monumentos mais imponentes e significativos (em parte resultado da situação anterior); e por fim a falta de articulação entre as múltiplas entidades interessadas na valorização desse património (Direcções Regionais, entidades turísticas e autarquias). Veja-se como exemplo a anunciada inauguração de um “centro de interpretação do megalitismo” em Mora, certamente uma aposta justificada pela respectiva autarquia, como complemento da oferta já proporcionada pelo vizinho “Fluviário” mas que, quer na sua concepção quer na sua localização, resultou de uma iniciativa local dificilmente enquadrável numa estratégia geral de valorização do megalitismo no Alentejo Central. Daí que se saúde como bem vinda, a experiencia piloto recentemente promovida entre as Câmaras de Évora e Montemor-o-Novo, visando precisamente a chamada de atenção para o importante megalitismo comum. Ainda que a título de experiencia, técnicos ao serviço de ambas as autarquias estão a executar um levantamento tridimensional das duas maiores antes do Alentejo (Anta Grande do Zambujeiro e Anta Grande da Comenda da Igreja) com vista à sua disponibilização através de recursos virtuais (Projecto ANTA GRANDE2 -Anta Grande ao Quadrado ). Na falta de meios ou de condições (até jurídico-administrativas) para as intervenções físicas e concretas cada vez mais urgentes e necessárias, a “realidade virtual” terá pelo menos o mérito de ir chamando a atenção para este património único, ainda que com “sortes” diversas. De facto a situação da Anta da Comenda, ao contrário do que se passa com a do Zambujeiro, é em vários aspectos, incomparavelmente melhor. Quer na conservação geral, quer no enquadramento paisagístico. Já o acesso é mais difícil.




Recolha de imagens para o levantamento tridimensional, hoje relativamente facilitado por programas informáticos adequados

A Anta Grande do Zambujeiro, mo início dos anos 80, pouco antes da instalação da inestética mas ainda hoje necessária "cobertura provisória"! Foto do levantamento estereofotogramétrico então produzido pela ESTEREOFOTO para o Serviço Regional de Arqueologia do Sul


Resultado gráfico do levanatemento estereofotogramétrico dos anos 80. A anta vista do enfiamento do corredor.













domingo, 21 de fevereiro de 2016


O guarda do Cromeleque


Na falta de "guarda", um turista criativo deixou esta cara sorridente que agora recebe os visitantes nos Almendres

Embora a frequência de turistas seja uma constante no Cromeleque dos Almendres, desde o nascer ao pôr do Sol, (e não só) quando o tempo melhora, como aconteceu este fim de semana, o número de visitantes dispara, pois o sítio tornou-se também local de simples passeio para muitas famílias eborenses. O enquadramento dos visitantes, como é sabido, é praticamente nulo, ainda que a criação (faz agora 4 anos) de um parque de estacionamento improvisado, tenha melhorado a situação substancialmente. Curiosamente, e apesar da total ausência de controle e de guardaria (que se justificaria num monumento com a importância dos Almendres), nos últimos tempos não temos registado, felizmente, quaisquer ocorrências negativas, com a excepção de algumas fogueiras noturnas que ocasionalmente deixam as suas marcas no terreno. A possibilidade de acesso livre a qualquer hora e em qualquer dia, é muito prática e até pode ser romântica, mas não é sistema viável, pondo em risco a salvaguarda do monumento e a sua preservação a longo prazo. Mas esse é assunto para outras escritas. Em todo o caso, ao contrário do que sucedia há alguns anos, mesmo sem qualquer sistema de limpeza regular e sem caixotes de lixo, temos verificado que o monumento e a sua envolvente se mantêm surpreendentemente limpos. Mais civismo certamente da parte de quem visita os Almendres, mas também respeito por um enquadramento natural e paisagístico raro.

 No sábado passado, em mais uma "visita de inspeção" que por iniciativa própria faço com alguma regularidade, encontrei um curioso grafiti (felizmente numa placa da Herdade e não em nenhum menir....) que nos parece interpelar por essa falta de qualquer tipo de controle humano ainda que essencialmente preventivo Não era a única marca da interactividade que o sítio parece suscitar em muitos que o visitam. Para além dos vestígios da última fogueira, flores em torno de uma árvore e um quadrado inter-menires, desenhado com sal (?), davam conta de actos que, sendo inocentes e inofensivos, demonstram que afinal tudo poderá acontecer nos Almendres.







quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Arqueologia do Alqueva_ novo doutoramento

A expressão "afilhado" tem alguma conotação negativa mas não encontro melhor forma para exprimir a relação de cumplicidade, para além da camaradagem entre colegas ou mesmo da amizade em muitos casos, que estabeleci com muitos dos intervenientes no Projecto arqueológico do Alqueva.

Passam proximamente (Maio) 20 anos sobre a minha "transferência" temporária para a EDIA e a deslocalização diária para Mourão (1996-2002), pelo que foi com alguma emoção e até uma ponta de orgulho, que assisti ontem ao Doutoramento do João Marques, na sala dos actos da Universidade de Évora, defendendo uma tese baseada nos trabalhos que coordenou no Alqueva (Bloco 14- Sítios Medievais na margem direita do Guadiana, entre o Azevel e o Degebe).

Não é a primeira tese de doutoramento (na área da Arqueologia) baseada nos trabalhos do Alqueva mas foi a primeira a que tive oportunidade de assistir às respectivas provas. Recordo as três anteriores. Hipollito Collado, na Universidade da Extremadura, sobre a Arte Rupestre do Guadiana; Joaquina Soares, sobre o Povoado do Porto das Carretas (Mourão), na Universidade de Lisboa e o malogrado Fernando Ferreira em Salamanca, sobre o povoamento medieval na zona ribeirinha do Guadiana, no concelho do Alandroal ver aqui. Depois das duas dezenas de monografias publicadas, ver aqui de algumas teses de Mestrado e de uma grande exposição no MNA em Setembro/Outubro último ver aqui  (que infelizmente passou quase despercebida dado o contexto político-social com que coincidiu), não esquecendo a exposição sobre o Castelo da Lousa em Dezembro, ver aqui,  o projecto arqueológico do Alqueva continua a dar frutos.

No júri, vários arqueólogos também ligados, cada um à sua maneira ao Projecto. Desde logo os orientadores, Professor Jorge Oliveira (que escavou a Anta da Fábrica da Celulose e várias estruturas etno-arqueológicas, trabalhos já publicados), a Doutora Susana Gómez, que estudou e publicou materiais cerâmicos medievais do Alqueva, a Professora Conceição Lopes, coordenadora científica de um dos blocos (Romanização na margem esquerda) e autora de uma das monografias e por fim o Doutor Santiago Macias que, embora não intervindo arqueologicamente no processo é actualmente Presidente da Câmara Municipal de Moura, território no cruzamento de todos estes trabalhos e projectos. Um agradecimento especial ao Jorge Oliveira pela elogiosa referencia à importância do projecto arqueológico do Alqueva para o desenvolvimento da arqueologia alentejana.







Aspecto dos trabalhos coordenados pelo João Marques no Roncanito 4, no final do século passado
Ainda os trabalhos no Roncanito 4

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Santa Clara-a-Velha, a história repete-se...

Foto do "Publico"- 14 de Fevereiro de 2016

Ás vezes adoraríamos não ter razão. O projecto de conservar (a seco) Santa Clara-a-Velha, defendido com entusiasmo e levado a cabo com grande tenacidade por alguns colegas arqueólogos (mas não só) que muito estimo e a quem me ligaram em tempos relações de trabalho no âmbito do IPPC, sempre me pareceu excessivamente ambicioso, para a escala de meios normalmente disponíveis no país para o património cultural e muito arriscado, tendo em conta o historial das relações complexas entre o monumento e o vizinho Mondego. De recordar que ainda no final da Idade Média, numa tentativa desesperada de o preservar em funções, o seu piso térreo fora sobre elevado de forma bastante significativa. Mas afinal em vão, pois o local acabaria por ser abandonado e substituído por outro em cota segura relativamente às cheias do Mondego.

Não acompanhei o desenvolvimento deste projecto mas fui tendo eco dos resultados considerados excepcionais da investigação arqueológica, em particular no claustro, investigação proporcionada por uma complexa e dispendiosa operação de engenharia hidráulica que permitiu drenar grande parte da antiga cerca conventual (localizada em pleno leito de cheia) e, sobretudo, criar as condições de manutenção artificial dessa situação. De referir que intervenções arqueológicas deste tipo, em níveis freáticos, são vulgares em países do Norte da Europa, havendo tecnologia que proporciona as condições para o efeito. Já a manutenção a "seco" de estruturas descobertas nessas escavações, a existirem, serão certamente bastante raras, dados os problemas de conservação que implicam e a dificuldade em criar condições de isolamento relativamente ao seu anterior ambiente. Eu, pelo menos não conheço outros exemplos. Poderíamos então concluir que, no caso de Santa Clara-a-Velha, uma vez concluída a investigação arqueológica teria sido preferível não ter ilusões relativamente ao futuro das ruínas e não tomar medidas prevenindo a sua re-inundação e certamente, o rápido e inevitável re-assoreamento? Só quem esteja fora desta temática poderia ter essa ilusão. Não foi certamente a investigação arquelógica que esteve na origem do "programa" de intervenção e aquela só foi possível face às ambições e motivações museológicas subjacentes. Quão espectacular seria recuperar às águas e à lama, o claustro na sua beleza original, proporcionando uma experiência rara ao futuro visitante?

Só há pouco mais de um ano tive oportunidade de revisitar a "nova" Santa Clara-a-Velha na sequencia da respectiva requalificação e musealização (um sítio que visitara frequentes vezes no passado, em trabalho e em turismo)  e devo confessar que fiquei bastante bem impressionado. A intervenção arquitectónica moderna revelou-se-me muito sóbria na relação que estabelece com as ruínas e de uma maneira geral quer o circuito de visita, quer o Centro de Interpretação, são verdadeiramente exemplares e do melhor que tem sido conseguido em Portugal, no que respeita a musealização e valorização de estruturas arqueológicas. É certo que as ruínas e o respectivo enquadramento ajudam muito mas há que neste caso valorizar o trabalho dos projectistas e de toda avequipa envolvida. No dia em que lá estive, havia imensa gente, e não apenas turistas. Tive oportunidade de comentar esse facto com um dos colegas ligado à concepção e desenvolvimento do projecto que confirmou que a qualidade e interesse cultural e natural do sítio e da intervenção, estavam a criar novos hábitos na população de Coimbra e a contribuir para a requalificação da envolvente, uma zona tradicionalmente degradada.

Afinal, pensei  olhando para o movimento de pessoas e para a proximidade da cidade de Coimbra, logo ali ao passar da ponte, valeu a pena o grande investimento e os custos elevados de manutenção (nomeadamente no que respeita à energia necessária para o funcionamento das bombas hidráulicas) até porque, com tantos visitantes talvez seja possível conseguir algum equilíbrio na sua "exploração".

Infelizmente, como se veio comprovar (e não apenas por uma situação episódica e excepcional, pois ainda nem sequer estão completamente avaliados os prejuízos da inundação algumas semanas atrás e o sítio está de novo alagado), a natureza veio de novo lembrar-nos que por vezes não vale a pena teimar em contrariar a ordem natural das coisas e que outras soluções de "valorização" para este sítio, terão de ser imaginadas tendo em conta aquela inevitabilidade. Quando já se falava (antes da cheia de hoje) de trabalhos de recuperação da ordem dos 600 000€, previamente à tomada de qualquer decisão precipitada, deverá recordar-se que para regiões inteiras com um valioso património cultural público (castelos, sítios arqueológicos, igrejas e conventos) como é o caso do Alentejo, o OE têm atribuido ao organismo responsável,  nestes últimos anos de crise, para "obras de manutenção", verbas anuais da ordem dos 100 000€...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016


Perdigões_ exposição e workshop na Casa da Rua de Burgos



Há alguns meses tive oportunidade de recordar neste blog as circunstâncias da descoberta e reconhecimento deste povoado excepcional, localizado nos arredores de Reguengos de Monsaraz, situação que acompanhei de perto há 20 anos. ver aqui

Ontem tive o prazer de assistir a um conjunto de várias intervenções, coordenadas pelo António Valera, dando conta dos 18 anos de investigação arqueológica exemplar que tem vindo a ser realizada neste sítio. A presente iniciativa, uma parceria entre a DRCALEN e a Empresa ERA ARQUEOLOGIA, organizada em tempo record, num contexto de grande informalidade e praticamente a "custo zero", atraíu à nossa Galeria da Rua de Burgos um número razoável de interessados, com destaque para alunos e investigadores ligados à Universidade de Évora. A acompanhar a iniciativa e proporcionando a ocasião para a visita por um público mais alargado, foi também preparada uma pequena exposição onde se apresenta um excepcional conjunto de materiais, testemunhos muito raros dos restos materiais ali deixados entre 3500 e 2000 pelos frequentadores deste enigmático sítio. Com efeito, pese embora o invulgar investimento em investigação ali realizado, tivémos oportunidade de ouvir da boca dos próprios arqueólogos, que são mais as interrogações que surgem a cada dia do que as respostas. O próprio estatuto funcional do sítio está ainda por determinar, uma vez que na área até agora escavada (menos de 1% da área arqueológica), ainda não foram encontrados vestígios que possam confirmar tratar-se afinal de um "povoado", pelo menos tal como nós o costumamos conceber.

Para quem não possa visitar a exposição, deixamos os "links" de acesso aos blogs oficiais relacionados com este projecto de investigação:


António Valera, na intervenção em que fez o balanço de 18 anos de investigação.
Miguel Lago da Silva, falando sobre a vertente de comunicação e divulgação pública dos resultados da investigação (afinal o objectivo final de qualquer projecto arqueológico), onde referiu as limitações e dificuldades enfrentadas nesse campo.


Lucy Shaw Evangelista, referindo-se à importância única do imenso registo bioantropológico dos Perdigões e da actual fase de estudo do Sepulcro 1

Cláudia Costa dando conta dos resultados obtidos a partir do estudo de 15 000 restos faunísticos, uma pequena percentagem do registo zooarqueológico disponível

Um aspecto da assistência.

Um desafio próximo, muito pouco "evidente", (a inscrição nas listas do património da Humanidade) mas motivador para as futuras décadas de estudo. Não será fácil demonstrar ao público em geral a monumentalidade de um sítio quase invisível, porque no fundo, e é essa a conclusão a que a Arqueologia está a chegar, o verdadeiro monumento arqueológico, será a linha do horizonte que o grande anfiteatro natural dos Perdigões, permite descortinar a Nascente, nele imperando como grande eixo (axis-mundi?), a linha definida entre o centro do próprio sítio e a colina de Monsaraz que, como por "milagre", é coincidente com o eixo equinocial.






terça-feira, 9 de fevereiro de 2016


A velha escola do Bairro de Janeiro (2)




Há algumas semanas, assinalando o quadragésimo segundo ano de funcionário público, publiquei neste blog algumas fotos   ver aqui  sobre essa minha primeira e curta experiência pedagógico-didática, acontecida numa escola preparatória provisória da Amadora, entretanto já desparecida e substituida  por uma escola nova (a Escola Francisco Manuel de Melo), experiência que assinala o início da minha carreira de funcionário público que, em princípio, terminará dentro de um ano. O "post" acabou por ter alguma audiência, bem acima da média habitual, certamente por causa das fotos que terão despertado alguma curiosidade.

Entretanto, remexendo nos meus papéis antigos, acabei por encontrar outras imagens da época que julgo valer a pena aqui divulgar. Óbviamente, já não consigo referenciar ninguém. De qualquer modo as crianças que aparecem nas fotos têm todas hoje mais de cinquenta anos e apenas elas se poderão reconhecer a si próprias. A minha carreira no ensino (1973-1980) foi curta ainda que intensa e, talvez por essa razão, depois disso tive muito poucos contactos com as pessoas com quem interagi nesse período, algumas das quais me marcaram profundamente. Recentemente, soube que a minha orientadora de estágio no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, a Prof. Maria Emília Diniz, apesar da sua idade avançada, ainda é viva. Muito raramente, vou-me cruzando com algum antigo aluno. O último caso que recordo, foi de uma antiga aluna do Liceu Maria Amália, actualmente residente em Évora e que me reconheceu (numa visita aos Almendres em que insistentemente me tratava por "professor") porque eu fora o seu primeiro professor masculino no Liceu...

Sem dadta conhecida, mas certamente posterior a 25 de Abril de 74, atendendo ao tema do "trabalho de grupo" (Os direitos das crianças)
Decorando as frias paredes dos pavilhões pré-fabricados.
A novidade do trabalho em grupo.
No exterior dos pavilhões pré-fabricados, o único espaço de convívio dos alunos.





Um "Pinochet" a rigor, na peça teatral "Os meninos do Chile", concebida, produzida e representada por alunos entre os 10 e os 13 anos... (1974 ou 1975?, quando o golpe militar do Chile (11 Set.2013) ainda estava muito presente 



Ainda "Os meninos do Chile"





Fotos da festa da escola em que foi representada a peça "Os meninos do Chile". Local do evento, o salão paroquial da Igreja da Amadora, graças ao apoio incondicional do João Bragança, na altura padre coadjutor na Amadora e já então um apoiante incondicional de tudo o que viesse do lado do "povo"...




quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016




Os LAND ROVERs nas minhas memórias arqueológicas


Land Rover Defender_ um exemplar da 1ª Série (1948)



Não compreendo...Eu supunha que os britânicos mantinham as suas melhores tradições. Eu escrevi um texto necrológico acerca do Land-Rover Defender adquirido em 1978 e que serviu a Unidade de Arqueologia durante mais de uma década. Quando foi abatido à carga eu propus à Directora do Museu de D. Diogo de Sousa que o veículo fosse conservado no jardim o que não foi aceite.


Foi nestes termos que Francisco Sande Lemos comentou no Facebook o recente anúncio do fim dos velhos Defender, e de facto recordo de ter lido algures (na revista FORUM da Universidade do Minho?) o elogio fúnebre ao tal Land Rover de Braga que conheci bem nas incursões que, por razões de serviço, por vezes fiz ao Norte nos anos 80. Esse comentário acabou por servir de pretexto para incursão nas minhas “memórias” arqueológicas que, inevitavelmente, se cruzaram também com a velha marca de viaturas todo-o-terreno.



Por estranho que hoje pareça aos mais jovens, a disponibilidade de viaturas ainda há poucas décadas, não era uma condição indispensável em arqueologia. Bem pelo contrário. Nas primeiras campanhas efectuadas no Ródão não havia qualquer carro à nossa disposição. O combóio levava-nos de Lisboa até Vila Velha e a partir daí funcionava o entusiasmo e a imaginação. O meio de locomoção básico, a partir da “pensão”, era o nosso próprio pé: pela linha férrea, estrada ou todo-o-terreno, de boleia, de “táxi” (quando a verba chegava) ou até de barco, já que ainda havia barqueiro no Fratel (para levar o pessoal que chegava de combóio, para o lado de Nisa) e em Perais. Aliás era essa um pouco a tradição da arqueologia portuguesa que, até aos anos 80, raramente dispunha de meios “automóveis”. Os que apareciam, por mão amiga, ficaram normalmente registados na bibliografia. Ainda há pouco, num texto sobre Maxime Vaultier, me referi ao seu habitual serviço de mecenas arqueológico, em grande parte proporcionado pela sua “grande viatura” como recordou a quando da sua morte, Veiga Ferreira. (ver a propósito ), mas não foi caso único. Carl Harpsoe, um dinamarquês radicado em Portugal, espeleólogo e arqueólogo amador, também costumava apoiar automobilisticamente os arqueólogos, tendo ficado célebre, graças ao relato de Farinha dos Santos, a “corrida desenfreada” entre Lisboa e o Escoural em Abril de 1963, que permitiu àquele arqueólogo, ao serviço de Manuel Heleno, antecipar-se à “concorrência local” no reconhecimento arqueológico da nova Gruta descoberta na Herdade da Sala. A problemática dos transportes não é de facto um simples “fait divers” na história da nossa arqueologia e seria até interessante tentar perceber, do ponto de vista geográfico, como é que a disponibilidade de meios de transporte ou a proximidade de vias transitáveis, influenciaram a progressão do reconhecimento arqueológico do território. São quase míticas as histórias que se contam sobre os métodos usados por Leite de Vasconcelos para ultrapassar distâncias, as quais não foram impedimento que objectassem o seu afã recolector em favor do seu Museu Etnológico (e que, apesar de tão criticado tantos artefactos permitiu salvar da perda total….). Segundo consta o Museu tinha ao seu tempo uma avença com os caminhos de ferro para esse fim e tudo o que era preciso era uma boa carroça e mulas capazes de vencerem as distâncias até à estação mais próxima. No caso das numerosas lápides e inscrições do Endovélico que recuperou em São Miguel da Mota, no Alandroal, a via seguida foi precisamente a estação de Vila Viçosa.  Poderíamos analisar também a importância que a disponibilidade de viatura (pelo menos no pós-guerra), ainda que prioritariamente dirigida ao reconhecimento geológico e mineiro, terá tido na extensíssima produção arqueológica dos Serviços Geológicos, graças ao interesse pessoal de figuras como George Zbyzewski ou Veiga Ferreira, coisa que certamente não acontecia com a generalidade dos arqueólogos portugueses à época. Em contrapartida a indisponibilidade desses meios ainda vem dar maior destaque à tenacidade ou a verdadeira “paixão” com que alguns arqueólogos abraçaram determinados projectos. Um dos casos mais dramáticos, expresso em numerosas cartas, seria protagonizado por Abel Viana, nas escavações que empreendeu nos anos 60 no remoto Castro da Cola, com consequências fatais para a sua saúde.

Um Land Rover da 1ª série ao serviço da Arqueologia? Foto da "brigada" arqueológica de Aljustrel, nos anos 50, que integrava entre outros Abel Viana, Octávio da Veiga Ferreira, Ruy Freire de Andrade e o P. António Serralheiro. A viatura pertenceria aos Serviços Geológicos ou à empresa concessionária das minas de Aljustrel, onde trabalhava Freire de Andrade. (?)
Nestas circunstancias, uma das primeiras pequenas vitórias após o 25 de Abril dos arqueólogos ligados à Faculdade de Letras de Lisboa, onde o peso do grupo de jovens ligados à arqueologia de Vila Velha de Ródão era significativo ao lado dos novos assistentes contratados, seria a obtenção de duas viaturas para apoio dos trabalhos de campo. Na falta de outros meios, porém, valeu na altura um qualquer depósito de viaturas do Estado já abatidas ao serviço, onde no meio de muita sucata foi possível descobrir 2 velhos Land Rover, ainda em estado, aparentemente recuperável e que conseguimos impingir à Secretaria da Faculdade. Estamos a falar de 1974/75, em viaturas que teriam à época cerca de 2 décadas de estradas manhosas. Aliás, pelo que recordo de uma delas, ainda a gasolina e com um consumo absurdo, provavelmente seria ainda um raro exemplar da Série I do Defender, começada a produzir em 1948. Dadas circunstancias, esta última praticamente não sairia dos arredores de Lisboa. Já a segunda, visivelmente menos idosa e já a gasóleo, ainda nos permitiu algumas surtidas de longa distância. Na Primavera de 75, serviu de apoio ao GEPP para aquela que terá sido a primeira prospecção arqueológica realizada no Guadiana já por acusa do Alqueva (obra só concluída um quarto de século depois). Serviu também de apoio às prospecções do novo troço da Auto-estrada do Norte, entre Vila Franca de Xira e o Carregado (imagine-se!). Nesse mesmo Verão, o velho Land Rover da Faculdade esteve ao serviço das escavações do Penedo do Lexim, promovidas pelo então assistente José Morais Arnaud como parte curricular da sua cadeira de “práticas arqueológicas”. http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/12/penedo-do-lexim-2-o-meu-post-de-ontem.html

O Land Rover (gasóleo) da Faculdade nas escavações do Penedo do Lexim (Setembro de 1975)

Ainda nas escavações do Penedo do Lexim de 1975, com o Francisco Sande Lemos "a cavalo" e a Isabel Silva em primeiro plano.


Recordo que a certa altura eu próprio conduzi esta viatura a Mértola em data que não posso precisar, (mas anterior a 77, uma vez que o Cláudio Torres ainda não tinha “descoberto” a vila Alentejana), onde ficaria ao serviço de outro Assistente da Faculdade, o Manuel Maia então em escavações no fortim romano do Manuel Galo. Mas a idade não perdoaria e, por volta de 1977/78, protagonizei a segunda morte do velho Land Rover. A caminho de mais uma campanha no Ródão (fase Paleolítica), já em Ponte de Sôr, ouvimos um enorme estrondo seguido do bloqueio imediato da viatura em plena Rua principal daquela vila. Uma peça qualquer estava caída sob o carro e este não dava qualquer sinal de vida. No meio da desgraça, a sorte de estarmos em área urbana. Mas depressa um mecânico ditava a sentença: o Land Rover tinha perdido a “caixa de velocidades” e pouco havia a fazer, para além de rebocar a viatura para a garagem mais próxima com toda a bagagem. Como se depreende, esta foi talvez a campanha mais curta dos anais 
arqueológicos do Ródão.

Memórias africanas do Land Rover
http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/04/1983-missao-arqueologica-em-angola-na.html