sexta-feira, 1 de abril de 2016

Quando a História de cruzou com a Arqueologia, nas páginas do "República"

(22 de Fevereiro de 1974)


Já em anteriores ocasiões tirei partido neste blog de alguns "tesourinhos" jornalísticos (re)descobertos pelo Gonçalo Pereira e que, pelo seu interesse arqueológico, aquele me fizera chegar. Gonçalo Pereira é mais conhecido (pelo menos era daí que eu o conhecia) pelo seu magnífico trabalho como editor da National Geographic portuguesa, onde tem dado a conhecer a um público alargado e de uma forma que só ele é capaz, interessantes "histórias" presentes e passadas da nossa "arqueologia". Mas é também um "historiador" do jornalismo português, como descobri recentemente ao tornar-me seu "amigo no Facebook" e ao começar a seguir as curiosíssimas "caixas" jornalísticas que ele vai descobrindo e recontando de forma magistral e extremamente bem informada, cruzando-as com a história contemporânea. Foi por isso que há poucos dias me embrenhei pela leitura da última entrada do seu blog (Ecosfera) "Paradela, Valdemar, Guerra e Ribeiro dos Santos- os nomes por trás das notícias sobre "Portugal e o Futurocuja leitura aqui recomendo

Após a descrição das peripécias em torno dos preparativos da publicação da obra de Spínola, dignas (não sei se pelos factos em si se pela vivacidade do relato) de um romance à John Le Carré, o texto culmina com o equívoco ou o acaso, bem à portuguesa, que faz com que uma notícia discreta destinada às páginas interiores, para fintar a Censura, acabasse na primeira página do República com todo o destaque. Até aqui, fui seguindo atento e curioso a descrição, recordando as circunstancias tão especiais da referida edição que, mais pelo significado e contexto do que pelo conteúdo (como se viria a verificar pelo posterior comportamento do autor) tanto alvoroço provocaram naquele final de Fevereiro de 1974. E com efeito, procurando nos meus livros, lá encontrei um dos 50 000 exemplares então editados, um record absoluto na edição portuguesa, comprado numa livraria da Amadora, cujo nome já não recordo, mas bem conhecida por ser poiso habitual de pessoal do "contra". 


Naturalmente, não podia faltar no texto de Gonçalo Pereira, a reprodução da capa jornalística em causa (22 de Fevereiro de 1974) e foi então que se me produziu o "déjà vu". Eu comprara certamente aquela edição do República de há 42 anos, pois trazia aquela que para mim era a grande ainda que já esperada notícia do dia: o próximo afundamento pelas águas da Barragem do Fratel (Vila Velha de Ródão) do Complexo de Arte Rupestre do Vale do Tejo que uma larga equipa de estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, por sua livre e espontânea iniciativa, vinha estudando desde que fora descoberto no final de 1971, já com as obras da Barragem em curso. (Curiosamente, entre os muitos estudantes que haviam passado pelo Ródão, contava-se também a Manuela Rego, filha de Raúl Rego, o carismático director do "República"). 

Porque começara a dar aulas no mês anterior na Amadora, como aqui já contei, não pude acompanhar os factos que estão por trás desta notícia, e que no essencial haviam sido provocados pela visita ao Ródão do eminente pré-historiador italiano Emmanuel Anati, especialista em arte rupestre, e que culminara com uma conferencia de imprensa, julgo que no Carmo, na sede da Associação dos Arqueólogos Portugueses. É desse evento a foto superior publicada então pelo "República", na qual se reconhece, além de Anati sentado, os meus colegas de curso Francisco Sande Lemos, à esquerda e o malogrado Jorge Pinho Monteiro. à sua direita. Na outra imagem, registando a visita ao Ródão, vê-se Anati e reconheço ainda o Mário Varela Gomes, graças ao inconfundível barrete que usava à época nos trabalhos de campo. O título, a 4 colunas, "As águas da Barragem do Fratel vão inundar dentro de dias um valioso tesouro pré-histórico", apesar do dramatismo e das fotos, acabaria no entanto totalmente ofuscado, pelas circunstancias verdadeiramente históricas em causa. O outro título, apenas a 3 colunas, mas a vermelho e em corpo gigante, era afinal o (pré)anúncio da próxima queda de um regime prestes a fazer meio século.

A  primeira página do República de 22 de Fevereiro de 1974. A História a ofuscar a Arqueologia...
A notícia do "República" não representou uma excepção à época. A riqueza excepcional da arte rupestre do Vale do Tejo, embora nunca pondo em causa a construção da Barragem (o conceito de avaliação de impactos ambientais das obras ainda não existia em Portugal), acabaria por provocar alguma comoção social traduzida em vários trabalhos jornalísticos. Recordo em especial, uma grande reportagem de 1972 (?), ocupando as duas páginas centrais do Diário de Lisboa, intitulada "Viagem à Pré-história", da autoria de Augusto Vilela (1935-2012). Entre os meus papéis guardo ainda as páginas de outra grande reportagem sobre o afundamento da arte rupestre do Tejo, da autoria da jornalista Angela Caires (1939-2013), mas sem elementos identificadores quer da publicação em causa (talvez do "Século Ilustrado", pelo formato e pelo uso da côr) quer da data, embora, pelo teôr, deva ser próxima da notícia do República. Pelo seu interesse historiográfico e apesar do evidente mau estado, aqui deixo a respectiva reprodução.













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