quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Recordando Francisco Tavares Proença Júnior




Assinalando a passagem do centenário da morte do arqueólogo de Castelo Branco, Francisco Tavares Proença Júnior (1883-1916), a Associação dos Arqueólogos Portugueses, organiza dentro de alguns dias na sua sede do Carmo um colóquio de justificadíssima homenagem. Mas a Associação não se limita a recordar a figura do malogrado arqueólogo, falecido muito jovem mas já então com uma obra muito auspiciosa. Aproveitando a oportunidade, será feito um balanço sobre o conhecimento arqueológico da região (Carta Arqueológica do Distrito de Castelo Branco, contributos para uma revisão cem anos depois) pretexto para recordar o pioneirismo de Proença Júnior neste domínio fundamental para a salvaguarda do património arqueológico. Hoje considerada uma figura destacada entre os arqueólogos portugueses que na transição do Século XIX para o Século XX desenvolveram a sua acção a nível regional (a par de Estácio da Veiga, Rocha Peixoto ou Martins Sarmento) o seu nome e obra só não caíram no total esquecimento, graças ao Museu que fundou em Castelo Branco em 1908, e que de algum modo está nas origens do Museu Distrital que, muito justamente, ostenta o seu nome.

Felizmente, nos últimos tempos (vale mais tarde do que nunca) temos assistido a um movimento de recuperação e valorização desta importante personagem da Arqueologia portuguesa, que teve o seu ponto alto num Congresso Internacional de Arqueologia realizado em Castelo Bramco em 2008, promovido pelo Museu Tavares Proença Júnior e pela respectiva Sociedade dos Amigos do Museu. Comemorava-se então o Centenário da aprovação da criação do Museu que abriria as suas portas ao público em 17 de Abril de 1910. Nesse mesmo ano Proença Júnior editava o 1º nº da revista “Materiaes”, uma peça fundamental no tripé que sustentava a acção destes paladinos regionais da Arqueologia da época: investigação (arqueologia de campo), publicação científica (revistas especializadas), divulgação pública (museus). De referir que a publicação das Actas do Congresso de 2008 (Castelo Branco, 2010), e na qual tive a honra de colaborar (“O Ródão e a Arqueologia portuguesa do último quartel do Sèculo XX_ encruzilhadas de mudança”, pp. 81-106) assumiria num gesto pleno de simbolismo, o grafismo da centenária edição da revista “Materiaes”.

Actas do Congresso Internacional de Arqueologia, Castelo Branco, 2008

Congratulando-me com a oportuna iniciativa da minha Associação (AAP), configurando no centenário da sua morte, o reconhecimento nacional da figura do arqueólogo Proença Júnior, não posso no entanto esquecer que também neste campo devemos reconhecer os percursores. Quando há mais de 3 décadas o Francisco Alves, empossado como Director do Museu Nacional de Arqueologia (1980) decidiu relançar uma nova série da revista “O Arqueólogo Português”, cuja publicação estava há vários anos interrompida, socorreu-se essencialmente da equipa que com ele colaborava então na reorganização do Museu. Dela faziam parte vários dos jovens arqueólogos que haviam começado a sua carreira nas margens do Tejo, na zona de Vila Velha de Ródão, no âmbito do salvamento da Arte Rupestre do Tejo e que, no contexto desse projecto, haviam beneficiado da amizade e apoio do então Director do Museu de Castelo Branco, Dr. António Salvado. Talvez essa cumplicidade explique que no volume inaugural da sua IV série, surja um artigo de um “obscuro” colaborador daquele Museu, o meu amigo Joaquim Batista, dando conta de um “humilde” monumento megalítico da Beira Baixa, a Anta da Urgueira, escavado no início do Século XX por um “esquecido arqueólogo”, Tavares Proença Júnior, e cujos materiais permaneciam inéditos e quase perdidos nas reservas do Museu albicastrense. Hoje é consensual o reconhecimento do pioneirismo de Proença Júnior, mas há três décadas, poucos nos teremos apercebido da importância que um tal artigo tinha, não apenas para a divulgação da figura do arqueólogo Francisco Tavares Proença Júnior, mas sobretudo para a chamada de atenção para o vasto património arqueológico de uma região que, finalmente e graças ao movimento geracional em torno da descoberta da arte rupestre e do paleolítico do Ródão, saía de um torpor de muitas décadas. O Joaquim Batista que fora uma figura crucial na montagem no Museu de Castelo Branco em 1980 das “estruturas de habitat paleolíticas de Vilas Ruivas”, uma missão quase impossível (face às condições da época) coordenada pelo Luis Raposo e por mim (estruturas que seriam publicadas cientificamente, nesse mesmo volume do Arqueólogo Português), retirou-se mais tarde do Museu, seguindo outros caminhos profissionais. Mas, até porque reside há alguns anos na velha Egitânia, continua um fero paladino na defesa do património cultural da sua Beira-Baixa, com intervenções frequentes sobretudo no universo das redes sociais, onde amiúde o vou encontrando. 


O Joaquim Batista, à direita, acompanhando o Luis Raposo nos retoques finais da remontagem das estruturas de habitat paleolíticas de Vilas Ruivas, no Museu de Castelo Branco (1980).

Capa do 1ºv. da IV série d O Arqueólogo Português (1983)

Resumo facsimilado do artigo de Joaquim Batista


Estampas do mesmo artigo



domingo, 25 de setembro de 2016

Comunidades e Culturas




Tiveram lugar este fim de semana as habituais Jornadas Europeias do Património, este ano sob o lema acima destacado, "Comunidades e Cultura". Transcrevemos o que no Site da DGPC se diz a este respeito:


Este tema, adotado em 2016 por um número alargado de países membros do Conselho da Europa, e também por Portugal, tem como objetivo destacar e envolver as múltiplas formas de comunidade, comunidades locais, escolares, de bairro, clubes, associações de desenvolvimento, organizações não-governamentais, sejam de caráter cultural, religioso, filosófico, científico, desportivo ou recreativo, ou outras, preocupadas e vocacionadas para o conhecimento, proteção, desenvolvimento, utilização e organização dos seus próprios ambientes culturais, nas mais variadas formas. Compreender os elos de ligação entre o património e a(s) comunidade(s) contribui para a valorização da cultura nas suas múltiplas dimensões.
Em Guadalupe/ Valverde, ao contrário do que se passou em 2015, altura em que organizámos uma visita guiada aos jardins da Mitra (Conventinho e Paço Real de Valverde que a Universidade se prepara para concessionar para "hotel de charme"!) e uma caminhada até às Ruínas Romanas da Tourega (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/09/jornadas-europeias-do-patrimonio-em.html), nestas jornadas não houve qualquer actividade específica, qualquer "evento" como agora se diz. 
Pelo contrário, hoje mesmo, domingo 25 de Setembro, foi dia de Assembleia da União de Freguesias que se reuniu na antiga escola primária de Guadalupe (desactivada desde que o número de crianças se reduziu dramaticamente por estas bandas...). Inesperadamente, ou não, a reunião de hoje atraiu quase duas dezenas de assistentes. Um record em Guadalupe em que os participantes, para além dos membros da Assembleia, costumam contar-se pelos dedos de uma só mão. Afinal, talvez pelo interesse para a "comunidade" de um dos temas da Ordem de Trabalhos ("Informação sobre a negociação em curso entre a Junta de Freguesia e os proprietários do Cromeleque dos Almendres"), não se registaram faltas entre os eleitos da Assembleia e a sala estava bem composta.


A reunião de 25 de Setembro de 2016 da Assembleia da União de Freguesias de Guadalupe e Valverde
E de facto, o referido ponto da Ordem de Trabalhos acabaria por se destacar face às diversas intervenções, quer da parte dos eleitos quer da própria assistencia, mostrando que o "património" , nomeadamente o conhecido CROMELEQUE DOS ALMENDRES, começa de facto a ser uma preocupação da comunidade local. Segundo a informação disponibilizada na reunião, a Junta de Freguesia preocupada com o constante aumento de visitantes àquele monumento, sem qualquer controlo ou vigilância por parte de qualquer entidade, pública ou privada, com todos os riscos inerentes, apresentou oportunamente aos proprietários uma proposta concreta de solução. Uma vez que não parece ser do interesse dos proprietários da Herdade a exploração comercial do monumento nacional (estariam no direito de o fazer...), a Junta de Freguesia estaria na disposição de assumir a gestão e manutenção do monumento, uma vez reunidas algumas condições prévias. Infelizmente, apesar de alguma abertura inicial à proposta da Junta, actualmente as negociações parecem ter caído num impasse, perante algumas ".contrapartidas" exigidas pelos proprietários e que a Junta não está em condições de poder corresponder.
O processo não está encerrado, e também por isso a Assembleia se absteve, por agora, de tomar qualquer atitude ou iniciativa que pudesse prejudicar o diálogo ainda em curso. De qualquer maneira, a presente situação de total desregulamentação do acesso ao monumento (365 dias por ano, 24 horas por dia) começa a ser insustentável, ameaçando não apenas a sua conservação mas também a qualidade ambiental e a segurança da própria Herdade. (Hoje, um domingo de final de Setembro, já perto da hora do almoço, numa rápida ida e volta aos Almendres, contabilizei 39 viaturas, 1 autocarro de turismo e três caminhantes, o que perfaz cerca de 120 pessoas... De facto, ninguém está em condições de avançar um número concreto sobre os visitantes que passam por ano nos Almendres, mas estou certo que este já deverá rondar os 100 000. E tudo isto sem qualquer controlo ou vigilância. Uma situação que poderá acabar muito mal, um dia destes...)


terça-feira, 20 de setembro de 2016

(Re) Leituras de férias




Uma semana junto ao mar e sem netas...A oportunidade de voltar a livros que valem sempre ser relidos. É o caso deste "Les Origines de l'Europe", a tradução francesa de "Before Civilization" de Colin Renfrew, obra original de 1973, em que este conhecido arqueólogo inglês lançara o conceito da "Revolução do Carbono 14". A aplicação dos novos métodos de datação absoluta tinham vindo pôr em causa muitos pontos de vista da arqueologia tradicional mas, sobretudo, vinham abrir caminho a novas interpretações e a um novo paradigma da arqueologia em geral, como recorda o autor no prefácio da segunda edição inglesa (1979). A edição francesa de 1983 que estou a reler, numa tradução de Paulette Braudel, adquiri-a já em 1987 (está assinada por mim e com data, 28 de Abril de 1987, dia em que fazia 35 anos...). O livro interessou-me vivamente (começava então a desligar-me do interesse quase exclusivo pelo Paleolítico) a crer nos imensos sublinhados e julgo que terá sido decisivo para muitas das perspectivas que viriam a informar poucos anos depois as crónicas de Arqueologia que, alternando com o Luis Raposo, escrevi durante cerca de 2 anos para o Diário de Notícias (entretanto editadas em 1996 pela Europa-América no volume "A Linguagem das Coisas").

 Não costumo tratar muito bem os meus livros e para além dos sublinhados é normal poder encontrar alguma "bonecada" desenhada, muitas vezes sem sentido ou significado (hábito que herdei dos bancos da escola, desenhando sibretudo "carros" e "aviões"... lembro que tinha um colega de carteira, o António Carlos Frofe, de quem nunca mais tive notícias, que desenhava cavalos, exclusivamente, e com grande rigor...). Neste livro, numa das badanas, encontrei um desenho quase poético, de uma "anta", o que faz todo o sentido na obra em causa...





O desenho com que ilustrei em 1987.0 o meu volume de "Les origines de l'Europe"

terça-feira, 13 de setembro de 2016

ARQUEOLOGIA, NACIONALISMOS E RACISMOS

Na sequencia do anterior "post", onde partindo de um curioso recorte dos anos 40 do século passado, divagámos sobre possíveis interações ideológicas entre o Estado Novo e a Arqueologia portuguesa, pareceu-me útil aqui deixar dois artigos de divulgação que publiquei em 1995 no Diário de Notícias, sobre Arqueologia e Nacionalismos e Arqueologia e Racismo. Ambos os artigos foram posteriormente publicados no meu livro de parceria com Luis Raposo, "A Linguagem das Coisas", editado em 1996 pela Europa-América, mas aqui ficam na sua versão original de 2 de Fevereiro e 9 de Março, respectivamente.

Entretanto e comprovando que afinal estes temas começam a ser objecto de reflexão teórica e de investigação,  Rui Coelho,em comentário que agradeço, chamou-me a atenção para uma recente tese de doutoramento defendida na Universidade do Porto em 2011, sob orientação da minha colega e amiga Susana Oliveira Jorge, por Sérgio Alexandre Gones, de que aqui fica o respectivo Link.
https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/63187  e o (sempre) longo título: "O passado, a identidade e as teias do governo: estudos sobre os entrelaçamentos das práticas de produção do conhecimento arqueológico e de construção da identidade nacional salazarista"

Ainda sobre o tema do Nacionalismo e da Arqueologia, convém já agora referir o ensaio de Carlos Fabião,: Archaeology and nationalism: the Portuguese case,  publicado em "Nationalism and Archaeology in Europe (1996), edited by Margarita Díaz-Andreu £ Timothy Champion. Felizmente também disponível na Internet:
http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/10220/1/ArqNationalism.pdf





segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Arqueologia e Nacionalismo em Portugal, uma história por fazer


Há alguns dias, o Gonçalo Pereira da Rosa (editor da National Geographic portuguesa) dava a conhecer no Facebook, uma página de 1942 do jornal salazarista ou integrista “Acção”, assinada por Dutra Faria (1910-1978), na qual o conhecido jornalista procurava comprovar a origem ibérica da saudação romana do baço erquido, adoptada como forma de saudação típica do fascismo e do nazismo e mais tarde assumida pelos movimentos congéneres peninsulares, Portugal incluído. O artigo (“A saudação romana não é romana é Ibérica- Braço ao alto”)  é uma peça interessante para um tema que, infelizmente, tem sido muito pouco explorado pela historiografia da arqueologia portuguesa. 



Quais as relações entre o regime político que vigorou em Portugal durante meio século e a arqueologia praticada em Portugal durante o mesmo período? O tema não é inóquo, bem pelo contrário, e basta pensarmos nas responsabilidades desta disciplina na construção ideológica do Fascismo Italiano ou do Nazismo alemão, para de imediato nos interrogarmos se, guardadas as devidas distâncias, terá havido algo parecido entre nós. Como, aliás parece parece depreender-se dos parágrafos iniciais do “nacionalista” Dutra Faria: “(…) ou fosse de origem predominantemente céltica e fadados para os descobrimentos, ou fossem de origem predominantemente ibérica e fadados sobretudo para conquistas, todos os povos peninsulares usavam então, parece, o mesmo escudo ibérico redondo, a mesma espada curta e a mesma saudação: o braço direito levantado.”

É verdade que, abordado sobre o assunto em causa ("a origem da saudação fascista"), o etnólogo (e arqueólogo) Luiz Chaves (apesar de perfeitamente alinhado com o regime) é cauteloso, refugiando-se na materialidade das poucas evidências disponíveis… De facto, há um aparente distanciamento entre as estruturas político-ideológicas do fascismo/corporativismo português e a Arqueologia sua contemporânea. Não apenas determinado pelo natural afastamento cronológico-temporal dos temas, mas também explicado por circunstancias muito específicas. A unidade cultural linguística em todo o território e a antiguidade e estabilidade das fronteiras mais antigas da Europa, não exigiam à arqueologia qualquer explicação adicional  (embora da citação do Dutra Faria, ressalte bem a necessidade de marcar distancias em relação aos "vizinhos conquistadores"…talvez face às faladas veleidades “iberistas” de Franco!). Por outro lado e apesar do peso da História na construção ideológica salazarista, esta parecia satisfazer-se na gesta da “reconquista cristã” do território aos mouros, pela espada e pela cruz, gesta de que os Descobrimentos seriam afinal uma continuidade messiânica, determinada desde o nascimento da nação. A realidade, no entanto, é sempre mais complexa do que a pintamos e basta pensarmos na importância que a escavação dos castros assume nalgumas épocas (com o apoio de campos de férias da Mocidade Portuguesa) para pressentirmos alguma exploração ideológica da figura de Viriato não restrita apenas aos livros de História do "pai Mattoso". Ou interrogarmo-nos porque é que a arqueologia medieval, nomeadamente islâmica, precisou do 25 de Abril, para aparecer à luz do dia? Por vezes as omissões são elas próprias “ideologia pura”.

Ora na sequencia do “post” de Gonçalo Pereira, alguém (julgo que Alexandre Monteiro) recordou um antigo artigo de Katina Lillios sobre esta problemática, a do papel ideológico da arqueologia portuguesa durante os 48 anos de salazarismo. A Katina, é uma arqueóloga americana actualmente professora na Universidade de Iowa, com origens familiares na Grécia e em Portugal, que tem desenvolvido investigação em Portugal há cera de três décadas.  Conhecia-a ainda nos anos 80 em Lisboa, por via das funções que ocupava então no IPPC e desde então cruzámo-nos ocasionalmente. Ao ver a referencia de Monteiro, recordei que ela me tinha a certo altura oferecido um texto, então ainda não editado, e que pelo seu título me despertara grande interesse “Nationalism and Copper Age Research in Portugal during the Salazar Regime (1932-74)", até porque tinha então como livro de cabeceira a obra de Bruce Trigger "A History of Archaeological Thought" de 1989". Procurei-o por entre os meus papéis e encontrei a respectiva cópia. Entretanto, graças à INTERNET verifiquei que uma versão revista do referido texto fora entretanto publicada em livro pela prestigiada Cambridge University Press “Nationalism, Politics and the Practice of Archaeology” (1995). (O artigo da Katina Lillios e a obra completa, encontram-se com facilidade na NET)

Uma espreitadela ao respectivo “índice”,  (onde colaborou também o próprio Trigger) pode dar uma ideia da importância destas coisas, muito longe da aparente inocência dos “cacos ou das pedras”…






O artigo de Katina tem limitações óbvias que a própria refere, como a excessiva estreiteza do tema arqueológico abordado “Idade do Cobre” ou a falta de um maior aprofundamento das relações com o "regime", dos arqueólogos em causa no seu ensaio, Afonso do Paço e Eduardo Jalhay, um Coronel e um Padre Jesuíta. Mas vale sobretudo pela ousadia e pelo inedetismo da abordagem, a milhas da laudatória necrológica que caracteriza a habitual "arqueo-historiografia" nacional, o que terá sido facilitado por uma mistura atípica de "distanciamento" circunstancial da autora em relação ao meio paroquial com uma certa dose de ingenuidade juvenil (julgo que a ligação de Katina à arqueologia portuguesa vem desde os seus tempos de estudante). Aliás, não me admiraria, embora sem dados para o afirmar, que Katina Illios tenha conhecido dificuldades para trabalhar em Portugal, por causa deste artigo. Afinal, muitos dos que faziam arqueologia a quando do 25 de Abril, tinham começado antes (não me excluo do lote, ainda que como mero "estudante") e as “teias de relações” já existentes haveriam de manter-se durante muito tempo. Ainda hoje, com raras e honrosas excepções, quando se faz a “história” da arqueologia portuguesa do Século XX, as fidelidades das relações humanas ou outras, parecem sobrepor-se ao julgamento distanciado da procura da “verdade”… 

Em todo o caso, o corajoso artigo de Katina Illios sugere a eventual exploração de outros temas, alguns mais próximos, até porque a citação de vários artigos de jornais, para isso aponta. Espero que o Gonçalo Pereira da Rosa, na sua incansável releitura da imprensa do Século XX, nos encontre e faça chegar mais algum "tesourinho" esquecido nos arquivos.

(Apenas uma interrogação. a que "Miguel Martins" se refere Katina Lillios nos agradecimentos..."I especially wish to thank Miguel Martins for sharing with me much obscure and unpublished bibliographic material" ?)


sábado, 10 de setembro de 2016


As minhas memórias das "Torres Gémeas"




Passam hoje quinze anos sobre o ataque às "Torres Gémeas", bem no coração financeiro de Nova York, acontecimento que marcou de forma indelével o início do Século XXI. A sucessão de eventos trágicos que se seguiram de forma descontrolada e que parece bem longe de terminar, talvez venha a ser percepcionada pelos historiadores do futuro como a "Terceira Guerra Mundial"...

Nessa manhã de 11 de Setembro de 2001 dirigia ainda o projecto arqueológico do Alqueva e estava já no meu escritório de Mourão, na margem esquerda do Guadiana, quando recebi uma chamada telefónica do arqueólogo Victor Gonçalves, professor da Faculdade de Letras de Lisboa e coordenador de dois projectos de salvamento arqueológico do Alqueva (escavação das antas e povoados neolíticos do território de Monsaraz afectados pelo projecto). Mas, inesperadamente, não era de trabalho a chamada que me fazia a partir da casa que alugara em Reguengos para base do projecto. Com a voz muito alterada e relatando factos que não pareciam fazer qualquer sentido ("Nova York está a ser bombardeada, começou a III Guerra Mundial..".) face à minha natural incredulidade acabou por sugerir que procurasse uma televisão. Mesmo conhecendo há muitos anos o Victor (ele fora meu professor em Letras, ainda antes do 25 de Abril) não mantínhamos uma relação tão próxima que explicasse brincadeiras ou justificasse partidas de gosto duvidoso, pelo que, pressentindo que algo grave se passava, procurei uma televisão numa tasca próxima. A casa estava vazia (apenas a impávida proprietária encostada ao balcão, tão sujo como sempre) mas a televisão, como era habitual, estava acesa, transmitindo em directo de Nova York e, embora só mais tarde racionalizasse o que estava de facto a acontecer, ainda vi o choque do segundo avião (julgo que em directo mas não tenho a certeza, face ao estapafúrdio compreensível dos comentadores de serviço) contra uma das "torres gémeas", local onde estivera uma década antes.

De facto, em finais de Fevereiro de 1991, estive um fim de semana em Nova York, sozinho, tirando partido de uma escala a caminho de Los Angeles, onde iria participar num curso do prestigiado "Getty Conservation Institut", sobre preservação e gestão de sítios de arte rupestre. Apesar da curta estadia em Nova York, conservo da cidade excelentes impressões e também uma pequena colecção de fotos e "slides" de que aqui deixo hoje uma curta selecção. Nas minhas deambulações por Manhattan, passei pelo World Trade Center, atraído pela omnipresente monumentalidade das "Torres Gémeas", os edifícios mais altos da cidade mas acabei por não subir a nenhuma delas, pois já antes tinha estado no cimo do mítico "Empire State Building".

Uma década depois, em Fevereiro de 2000, passei de novo em Nova York, desta vez fazendo apenas escala técnica a caminho de um colóquio na Universidade da Flórida. Recordo que no regresso, esperando no Aeroporto Internacional John Kennedy (no modernista terminal TWA), pela ligação para Lisboa, ter vislumbrado no horizonte, a cerca de 20Km de distância, as inconfundíveis linhas verticais das Torres Gémeas, verdadeiro "land mark" de Manhattan, prestes a tornarem-se no trágico símbolo da História do Século XXI, então ainda no seu início.


Particularmente "fotogénicas", a presença das torres gémeas é dominante na minha pequena colecção de fotos de nova York (Fev. de 1991)







A este "arranha céus", sim subi (Empire State Building). Fez-me recordar que em miúdo a minha noção de "arranha-céus" eram os (altos?) prédios do Areeiro, onde passava de autocarro, com o meu pai, a caminho da Praça do Chile...
As "Torres Gémeas", vistas do Empire State Building, já ao entardecer. Um "skieline" irrepetível...

Um "selfie avant la lettre" (um quarto de século mais novo e com a indispensável ajuda de um qualquer turista acidental) no terraço/miradouro do Empire State Building...

A Washington Square, um dos sítios mais simpáticos de Nova York, (com uma escala quase europeia) perto da qual se localiza o pequeno Hotel em que me alojei. È sempre uma emoção rever este espaço compreensivelmente muito presente na filmografia nova-yorkina.

Apesar dos dominantes "arranha-céus", Manathan também tem destes detalhes inesperados.

De Nova York e para além do inconfundível urbanismo, o que mais me impressionou foi a riqueza dos seus dois grandes museus (a National Gallery, na foto e o Museu de História Natural)  e  ainda o passeio pedestre entre ambos através do fantástico Central Park. Ficou-me a pesar na consciência o não ter tido tempo para o Guggenheim original...Fica para uma próxima visita.







quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Gordon Childe em Portugal_ e a fábula do "jovem lobo e da raposa matreira"

A propósito de uma exposição documental em exibição na Biblioteca de Arqueologia da DGPC (Palácio da Ajuda), em que é dado particular destaque à correspondência trocada entre o conhecido arqueólogo australiano e a arqueóloga alemã radicada muitos anos em Portugal Vera Leisner (cujo arquivo se conserva na referida Biblioteca),ver aqui , o meu amigo Francisco Sande Lemos recordou hoje no Facebook a passagem de Gordon Childe pela Sociedade Martins Sarmento (e possivelmente pela Citânia de Briteiros), não em 1945 como ele por lapso refere, mas certamente em 1949, a crer no artigo que adiante refiro e que responde parcialmente a algumas questões de FSL.




"V. Gordon Childe visitou a Sociedade Martins em 1945, assinando o Livro de Honra, como membro do Institute of Archeology – University of London. Suponho que terá estado noutros locais de Portugal, mas desconheço se há algum trabalho sobre essa deslocação, logo no final da guerra, a terras de Oliveira Salazar (ditador entretanto resignado com a derrota de Hitler e do Fascismo). Teve influência em Portugal a partir dos anos 50, mas em especial na década de 70. Recordo as vivas discussões entre Eduardo da Cunha Serrão (um adepto do modelo de GChilde) e os estudantes de História da FLUL (já sob a influência de Lévi-Strauss e A. Leroi-Gourhain). Ficaram registadas nos primeiros artigos sobre a Arte Rupestre do Vale do Tejo." (FSL)


Com efeito, já António Carvalho (actual director do MNA) se havia referido a esta viagem de Childe, a propósito da passagem do conhecido arqueólogo em Cascais (1988, Para a história da Arqueologia em Portugal. O Livro de visitas da Junta de Turismo de Cascais) mas é Victor Gonçalves que num "saboroso" artigo, escrito com a fina ironia que lhe é peculiar e publicado no Arqueólogo Português de 2011, se refere extensamente a esta viagem e a um episódio ocorrido com o seu tradutor português à época, Jorge Borges de Macedo. O artigo que pode ser obtido em PDF ( aqui ) intitula-se "Vere Gordon Childe em Portugal. Uma pequena história (moral?) sobre um jovem lobo ainda inexperiente e uma raposa matreira" Por jovem lobo, entenda-se, Borges de Macedo que (com Vitorino Magalhães Godinho) traduzira para a colecção A Marcha da Humanidade da COSMOS, três livros de Childe ("Man makes himself", "What happened in History" e "Progress and Archaeology") publicados em 1947 num único volume intitulado "O Homem faz-se a si próprio". 


Segundo Victor Gonçalves, sabendo da presença de Childe em Portugal (nos últimos dias de 1949 e ao que se julga a convite do próprio Governo) Borges de Macedo pensa entrevistá-lo para a revista "Vértice" uma publicação periódica claramente conotada com o neo-realismo e os movimentos de oposição, então particularmente activos face à recente derrota do nazi-fascismo. Desconhecendo o programa da visita de Childe a Portugal, Borges de Macedo dirige-se através de carta a Manuel Heleno, então o "patrão da Arqueologia nacional", solicitando a ajuda do antigo professor e fazendo-a acompanhar de um exemplar da tradução portuguesa dedicada a Childe, supostamente para ser entregue ao autor, conjuntamente com as questões que gostaria de ver respondidas por este. Não conheço os detalhes biográficos de Borges de Macedo (1921/1996)  (que ainda foi professor da minha geração em Letras) para além de um certo efabulário "universitário" corrente nos anos em que, com "mão de ferro", controlava o curso de História e depois a própria Faculdade. Mas a colaboração na colecção da COSMOS e na revista Vértice nos anos do pós-Guerra, parecem encaixar na versão que dá conta de uma passagem mais ou menos militante pela "esquerda marxista", evoluindo posteriormente para posições cada vez mais alinhadas com o Estado Novo. Ora, e é aí que na opinião de Victor Gonçalves entra na fábula a velha raposa matreira. Manuel Heleno ignora o pedido do "jovem lobo inexperiente" e guarda na "gaveta"  (são míticas na Arqueologia portuguesa as gavetas do Heleno) o livro, a carta e a lista das questões (em inglês), acabando tudo após a sua morte num alfarrabista...onde João Luis Cardoso o recuperaria muitos anos mais tarde.

Naturalmente, Victor Gonçalves a quem foi dada a oportunidade (felizmente não desperdiçada) de explorar este material, não pode simplesmente concluir que Heleno (por quem não nutre qualquer simpatia como arqueólogo ou pessoa) agiu de má fé. Embora não seja de excluir uma atitude premeditada da parte de Heleno, face aos dados disponíveis, a interpretação mais óbvia, passaria pela não relevância dada a mais um "pedido" de um ex-aluno de quem já mal se recordaria...  

Mas, a descoberta, entre os papeis de Heleno, do velho volume autografado, da carta e do "inquérito" redigido por Borges Macedo, era uma oportunidade imperdível para Victor Gonçalves, render homenagem póstuma ao "lobo velho" que, ao contrário de Heleno, obviamente muito admira.


segunda-feira, 5 de setembro de 2016



Do real ao virtual, não há "património" sem pessoas...





Se há coisa que aprendi nas várias décadas que levo de "profissional do património", é que não há projectos de salvaguarda e valorização sustentáveis (isto é, que perdurem no tempo para além do dia da "solene inauguração") se não houver uma base mínima de enquadramento humano ou seja populacional. Se esta máxima é generalizável a tudo o que seja "cultura", ela torna-se absoluta, quando falamos de "património cultural" em meio "rural" (ou seja, em 99,9% do nosso território.). Quando falham as pessoas (nem que sejam apenas os "vizinhos"), a degradação avança rapidamente e, em muitos casos, quando menos se espera, perdido o equilíbrio natural da "ruína", a situação do "bem patrimonial", estará bem pior do que antes da bem intencionada "intervenção" . Recordo a este propósito que, quando há cerca de quatro décadas começava a ter uma perspectiva abrangente da problemática da salvaguarda do património cultural no país, considerar-se haver uma maior atenção política da parte das autarquias do Sul (nomeadamente do Alentejo) por esta valência cultural. E não estava apenas em causa a consistente experiência de Mértola que desde cedo conheceu algum reconhecimento mediático ou a valorização do Centro Histórico de Évora, com a sua inscriçao nas listas da UNESCO... Mas com a passagem dos anos, fui obrigado a reconhecer que muitos dos projectos de valorização da riquíssima herança patrimonial do Alentejo, acabavam por definhar ou nem sequer arrancar, não apenas por razões económicas ou políticas (que afinal são uma consequência de outros factores a montante) mas essencialmente por ausência de uma massa crítica humana que, independentemente dos planeados aproveitamentos turísticos, conferisse algum sentido social  aos sítios ou estruturas recuperadas. É certo que no Norte, nem sempre (ou quase nunca) as intervenções das activas "comissões de festas" ou "outras", têm em conta a integridade ou autenticidade dos imóveis onde intervêm. Mas continua pelo menos garantido o seu uso tradicional, como garantia da sua preservação para além das inevitáveis transformações dos tempos. No Sul, antes de mais por falta de gente já que o despovoamento nestas últimas décadas é uma realidade catastrófica, a luta contra a degradação acaba por se tornar pouco mais do que quixoteca, apesar das excepções. Restará, em muito casos, o registo para memória futura ou, quanto muito, o registo multimédia que permita, no mínimo, uma "valorização virtual" dum património, para cuja preservação efectiva já não subsistem recursos económicos e, sobretudo humanos...


Está certamente na origem destas reflexões, algo pessimistas, a visita que acabo de fazer nesta fim-de-semana, à (infelizmente) efémera exposição "Património/Partilhar o Passado-construir o Futuro" patente na grande feira anual de Montemor-o-Novo, a Feira da Luz. Na falta de recursos que permitam uma intervenção global e consistente na salvaguarda do vasto e valioso património cultural do concelho (Montemor-o-Novo, territorialmente é um dos mais vastos concelhos do país, mas também por isso, com uma densidade populacional mínima), ou mesmo no desenvolvimento de projectos "âncora" há muito identificados (Castelo, Conventos da Saudação e São Francisco) a autarquia tem apostado ultimamente numa estratégia de inventariação e divulgação patrimonial digital, (http://montemorbase.com/)  com recurso a tecnologias particularmente atractivas (filmagens e levantamentos com recurso a "drones", reconstituições 3D de objectos ou estruturas arqueológicas, etc...). Considerando que conquistar a população, particularmente a mais jovem, para a importância da valência patrimonial do seu território é essencial, essa parece uma "opção" correcta. 



Mas há que não correr o risco de confundir o virtual com a realidade. Ainda que essa seja uma luta de longo prazo e de resultados incertos, parece essencial manter os pés na terra e continuar a lutar por objectivos patrimoniais "concretos". De facto Montemor-o-Novo tem um pequeno mas interessante Museu Arqueológico (de origem associativa) que precisa de ser renovado e que faça a ponte com uma herança arqueológica particularmente rica (Gruta do Escoural, Megalitismo e pré-história em geral). O museu não depende da Câmara, mas esta exposição mostra que a autarquia tem recursos humanos ao seu dispôr que podem dar um contributo essencial para fazer daquele Museu, um dos mais interessantes da região no seu género (recorde-se que a valência arqueológica está muito secundarizada no Museu de Évora). Montemor tem também um magnífico mas turisticamente pouco explorado "Centro histórico", facilmente articulável com as ruínas da sua "vila velha", escondida no interior das muralhas do Castelo. Montemor mantem ainda activos projectos artísticos de grande nível, como "O Espaço do Tempo" do coreógrafo Rui Horta, (http://www.oespacodotempo.pt/) ou as "Oficinas do Convento" (http://www.oficinasdoconvento.com/). Aliás a presença destes projectos em imóveis históricos de grande importância e dimensão no contexto regional (Convento da Saudação e Convento de S.Francisco)  ambos a necessitarem de urgente requalificação, tem sido nas últimas décadas, a única explicação plausível para que os mesmos, apesar da ruína, ainda se mantenham de pé, confirmando afinal a máxima com que abri este texto: não há património sem pessoas!


(Fotos da exposição "Património: Partilhar o Passado, construir o Futuro", Feira da Luz, 2016, Câmara Municipal de Montemor-o-Novo)








sexta-feira, 2 de setembro de 2016


SUZDAL e ÉVORA, cidades Património da Humanidade

 



No âmbito de um ciclo sobre a obra do cineasta russo ANDREI TARKOVSKY, a RTP2 passa esta noite o filme "ANDREI RUBLEV"(União Soviética -1966), por muitos cinéfilos considerado um dos melhores filmes de todos os tempos...

Há dias, ao partilhar um comentário de José António Gomes (http://www.abrilabril.pt/cultura/barry-lyndon-cenas-da-luta-de-classes-ao-som-de-grande-musica) a propósito da reposição da versão restaurada do filme BARRY LYNDON, escrevi no Facebook: Para mim Kubrick é o "realizador"! Entre 2001-Odisseia no espaço e Barry Lyndon hesito...mas acabo por dar primazia ao segundo, graças à banda sonora. Mas, naturalmente, gosto de muitos outros realizadores e Tarkovsky estará certamente na minha "short list", até em contraposição com Kubrick, ainda que seja também possível encontrar paralelismos entre ambas as obras.

Fotograma de "Andrei Rublev", tendo como cenário as muralhas do Kremlin de Suzdal
Recordo, nesse aspecto, que algures no final dos anos 70 ou início dos 80, quando ainda havia cinema num espaço comercial chamado CALEIDOSCÒPIO que surgiu em pleno jardim do Campo Grande frente à Alameda Universitária, ali estiveram durante alguns dias, em sessões duplas seguidas, o "2001 de Kubrick" (1968) e o "Solaris"(1972) de Tarkosky, pondo em excepcional contraponto, um filme de ficção científica "ocidental" e um "soviético"...Não perdi a oportunidade, mas julgo recordar que (pelo tardio da hora!) me deixei dormir durante os intermináveis planos de "Solaris"... Ainda que ambos os autores abordem nestes filmes as profundas questões sobre o sentido da essência humana, contraditoriamente, o "soviético" acabava por ser bem mais espiritualista, já na onda que Tarkovski desenvolveria em obras posteriores.

Ora tudo isto vem a propósito do facto de boa parte do filme que hoje passa na RTP2, ter sido rodado no início dos anos 60, em Suzdal, uma pequena cidade histórica, localizada a 200km a Norte de Moscovo e que integra o chamado "Anel de Ouro da Russia", região profundamente ligada à essência "religiosa" do nacionalismo russo. Graças à riqueza do seu património arquitectónico religioso, nomeadamente o localizado no seu vasto "Kremlin" ("acrópole"), com especial incidência nos séculos XII e XIII, Suzdal integrou de forma precoce as listas do património mundial da UNESCO.



Decorreu dessa circunstancia um especial relacionamento entre Évora e Suzdal, a partir de 1986, ano em que a cidade alentejana seria também reconhecida como Património da Humanidade pela UNESCO. Com efeito, várias delegações de SUZDAL viriam a estar presente nos festivais internacionais "Os Povos e as Artes", organizados em Évora pela Câmara Municipal no final dos anos 80 e que associavam o património às manifestações culturais e tradições populares. A geminação entre Suzdal e Évora data dessa época, tendo proporcionado troca de visitas de delegações entre ambas as cidades. Foi nesse âmbito, integrando de uma vasta delegação de "forças vivas" da cidade de Évora (inequivocamente sem qualquer discriminação política ou outra) julgo que chefiada pelo próprio Presidente da Câmara, Abílio Fernandes, que tive oportunidade de visitar a ainda União Soviética em Julho (?) de 1990. Apesar de uma curta estadia em Moscovo e de uma visita a Vladimir, outra importante cidade histórica vizinha de Suzdal, seria nesta cidade que permaneceríamos mais tempo, visitando de forma demorada o Kremelin, incluindo o seu museu, as igrejas e conventos, o museu da arquitectura em madeira, etc...). Para além da afabilidade das pessoas que nos recebiam nas suas próprias casas, fica-me sobretudo uma imagem de grande ruralidade, numa paisagem verdejante mas fria e de luz mortiça (que associava imediatamente ao filme de Tarkosky que já conhecia então), face à elevada latitude do lugar. As explicações sobre as práticas comuns de "sauna", que aconteciam nos quintais em simples abrigos de madeira e a que se seguiam os mergulhos no gelado Rio Kamenka, ainda mais aumentavam, nos visitantes "sulistas", essa sensação de frieza...
Recepção de parte da delegação eborense numa casa particular de Suzdal (1990)

Ficou também, em muitos dos viajantes eborenses, a sensação de uma estrutura social, económica e política em acelerada desagregação, sem que se percebesse ainda muito bem o que a viria a substituir. Estávamos em 90, praticamente no último ano da "perestroika" de Gorbatchov, e era óbvio que para os locais (talvez por diferentes razões e em função do posicionamento de cada um), Gorbatchov não era propriamente um dirigente muito querido. Por fim, recordo ainda dessa viagem à URSS, o passeio nocturno em Moscovo pela Rua Arbat, em companhia do Dr. José Ernesto, médico respeitado e então ainda Presidente da Assembleia Municipal de Évora, representando a CDU. Por mero acaso, ambos tínhamos lido recentemente o romance de Anatoli Ribakov ("Os filhos da Rua Arbat") uma obra de veemente denuncia do Estalinismo, embora a partir de dentro do sistema, e naturalmente, esse facto, cruzado com a experiencia daqueles curtos dias no coração da velha Rússia, esteve inevitavelmente presente na conversa que então mantivémos. José Ernesto, é sabido, entraria pouco tempo depois em ruptura com o PCP e acabaria por em 2002 ser eleito Presidente da Câmara Municipal de Évora pelo Partido Socialista, cargo que ocuparia durante 3 controversos mandatos, até 2013.

Sobre as relações entre Évora e Suzdal, pouco mais se ouviu falar desde então, ainda que em 2005 tenha sido confirmada a respectiva geminação e em 2007 uma delegação da cidade russa tenha estado oficialmente em Évora.

Para registo aqui ficam algumas fotos de Suzdal em 1990 e que conservo em "slide":





No museu da "arquitectura de madeira"







No Kremelin com a Igreja da Natividade em segundo plano


As cúpulas azuis da Natividade