sexta-feira, 18 de agosto de 2017


O Templo Romano de Évora_ em "obras", 146 anos depois




O Templo Romano de Évora (impropriamente conhecido como Templo de Diana) está "em obras", circunstancia que é uma estreia absoluta para todos os eborenses, na medida em que a última intervenção de que há registo aconteceu no longínquo ano de 1871. É verdade que, apesar do aparato dos andaimes, se trata essencialmente de uma intervenção preventiva urgente decidida na sequencia do recente desprendimento de parte de um capitel, situação que infelizmente era previsível. Ao contrário dos fustes em granito, os gigantescos capitéis e bases das colunas são em calcário (Estremoz) e os efeitos da poluição moderna (tipo "chuvas ácidas") a par da trepidação do trânsito mesmo condicionado, estão finalmente a dar sinal dos seus efeitos negativos. Um diagnóstico minucioso aos capitéis remanescentes e respectivos lintéis, a par do preenchimento de algumas fendas mais ameaçadoras, serão os objectivos agora em questão. Muito longe pois da grande operação conduzida quase há século e meio e cujos resultados estão na origem de uma das estruturas histórico-arquitectónicas mais facilmente reconhecidas pelo cidadão comum e imediatamente relacionável com Évora. Aquilo que hoje chamaríamos de uma "imagem de marca"...

Mas as circunstancias factuais na origem dessa imagem tão forte mas relativamente recente, são pouco conhecidas até dos próprios eborenses. Pessoalmente interessei-me pelo tema quando o Serviço Regional de Arqueologia do Sul que então dirigia, colaborou no final dos anos 80 com o arqueólogo Theodor Haushild ( ver aqui ) do Instituto Arqueológico Alemão nas extensas escavações realizadas na envolvente do Templo. A inesperada "descoberta" de vestígios de um "espelho de água" em torno do "podium", obrigou-nos a rever com atenção alguma documentação do século XIX depositada na vizinha Biblioteca Pública e brevemente nos daríamos conta de todo um longo e complexo processo de "restauração" do Templo promovido e conduzido por dois antigos directores daquela instituição, processo que entretanto quase caíra no esquecimento. Há alguns anos (1994), em número da Revista "A Cidade de Évora" de homenagem a Mestre Túlio Espanca, tive oportunidade de dar conta dos resultados de alguma investigação pessoal sobre este assunto. Para os interessados aqui fica o link para consulta do respectivo PDF.
https://www.academia.edu/844089/A_Restaura%C3%A7%C3%A3o_do_Templo_Romano_de_%C3%89vora_

Para além de algumas imagens comentadas, anexo também neste post, pelo seu interesse como registo (apesar das anormalmente excessivas gralhas tipográficas) o "facsimile" de um artigo que publiquei no Diário de Notícias de 3 de Junho de 1993, sobre a "restauração do Templo de Évora". Já agora, lembro que a popular denominação de "Templo de Diana", parece ter sido inventada pelo Padre Manuel Fialho, um historiador local do final do século XVII, a partir da infundada tradição introduzida por André de Resende de ligar as origens de Évora ao caudilho militar Sertório. Manuel Fialho, reconhecendo nos restos arquitectónicos do açougue, os vestígios de um templo pagão, associa-o à deusa Diana, a divindade que, segundo a lenda acompanhava Sertório, disfarçada de corça.


O Templo Romano de Évora, em obras um século e meio depois da sua "restauração"
A primeira representação gráfica conhecida do "açougue", a torre com o sino, ao centro da imagem (Templo romano). Detalhe da conhecida representação de Évora no Foral Manuelino de 1501.
O Templo Romano de Évora segundo um desenho de Carlos Van Zeller anterior a 1840, mostrando a situação do monumento na altura em que Cunha Rivara (Director da Biblioteca Pública,) se começa a interessar pelo seu "restauro". Trata-se de uma vista de Norte (a partir do actual Jardim Diana), quando já tinham sido demolidos uns anexos que ligavam o antigo "açougue" aos Lóios. No entanto persistiam ainda as construções conhecidas como "inquisição velha", demolidas entretanto por iniciativa de Cunha Rivara. É na sequencia dessas demolições (meados do século XIX) que Cunha Rivara procede àquelas que serão as primeiras grandes escavações arqueológicas urbanas em Portugal, descobrindo em torno do Templo o "espelho de água" que viriamos a "redescobrir" mais de um século depois. Estas escavações caíram no esquecimento...
Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara (1808-1879) Director da Biblioteca Pública de Évora entre 1838 e 1855

O "templo romano" (vista a partir do Jardim Diana) após as demolições e escavações de Cunha Rivara (foto anterior a 1871). São bem visíveis as "cicatrizes" das construções entretanto demolidas da "inquisição velha"

O Templo romano antes da grande intervenção de José Cinatti (1871), visto do largo do Paço Episcopal (actual Museu de Évora). Já tinham sido demolidos os edifícios da inquisição velha, mas conservava-se o corpo medieval entretanto usado para albergar temporariamente a colecção lapidar de Frei Manuel do Cenáculo. De referir que, Alexandre Herculano ao ser consultado sobre o restauro exclusivista dos vestígios romanos, aconselhou prudência e resguardo dos óbvios vestígios medievais.

Augusto Filipe Simões (1835-1884).. Director da Biblioteca Pública de Évora entre 1863 e 1872, retomou o projecto de "restauro" do Templo Romano iniciado por Cunha Rivara. Foi o grande impulsionador da obra finalmente assumida pela Câmara Municipal de Évora em 1871, após consulta a numerosos especialistas.

José Cinatti, (1808-1879), arquitecto e cenógrafo de origem italiana, que trabalhou muito em Évora, nomeadamente no Teatro Garcia de Resende e nas "Ruínas Fingidas" do Jardim do Palácio de D.Manuel. Dirigiu em 1871 as obras de "restauro" do Templo Romano e, na verdade, é o grande responsável pela sua actual "imagem de marca".


O "Templo Romano de Évora", no início do Século XX, após o restauro de José Cinatti, exibindo já a sua actual "imagem de marca", também presente no selo postal.
Foto de conjunto das escavações do Instituto Arqueológico Alemão (início dos anos 90 do século XX). Para além do lajeado do "forum romano", è visível à esquerda do podium, a base do "espelho de água" que envolvia o Templo.


Proposta de reconstituição do Templo Romano de Évora e do respectivo "espelho de água".
O "podium" do Templo romano de Évora, numa perspectiva pouco comum, tal como ficou após a intervenção de José Cinatto em 1871.






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