quinta-feira, 28 de abril de 2016




A Linguagem das Coisas


O convite para o próximo lançamento de um livro da minha nora Joana, a ter lugar no próximo sábado numa loja da FNAC "A mãe é que sabe", livro que reúne os melhores "posts" do blog que mantem com uma amiga desde o nascimento da minha neta Isabel, lembrou-me que, passam precisamente este ano duas décadas (!) sobre a apresentação de um livro meu, em parceria com o Luis Raposo, afinal com uma génese parecida... Claro que não havia "blogs" (a Internet entre nós estava a dar os primeiros passos) mas os jornais tinham ainda especial importância e as crónicas de ARQUEOLOGIA que ambos escrevíamos semanalmente para o Suplemento Cultural do Diário de Notícias (suponho que editado à quinta-feira) entre 1993 e 1995, chamara a atenção da Europa América, ainda dirigida por Francisco Lyon de Castro que então conheci pessoalmente, tendo-nos sido proposta a edição das referidas crónicas em livro, a que chamámos a "A linguagem das coisas". Não eram comuns e ainda hoje são raras, as edições de cariz comercial sobre arqueologia portuguesa, e por isso o evento de lançamento, realizado no Museu Nacional de Arqueologia no dia 15 de Outubro de 1996, e em cuja organização houve um especial empenho da editora, acabou por ter alguma relevancia social. A apresentação ficou a cargo de Jorge Alarcão, um dos poucos arqueólogos portugueses com uma obra consistente em circuito comercial (desde o seu Portugal Romano editado pela Verbo no início dos anos 70 até às sucessivas edições de O domínio romano em Portugal, da própria Europa-América) e dignou-se assistir,como soía dizer-se, o próprio Ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho. À época já não éramos propriamente dois novatos na arqueologia. O Luis iniciava por essa altura o seu longo e profícuo período de direção do próprio MNA (1996-2012) e eu, após uma curta passagem pela comissão instaladora do IPA, estava então a lançar o projecto arqueológico do Alqueva (1996-2002).  Mas esse fim de tarde no "nosso Museu dos Jerónimos", contando com a presença de tantos colegas e amigos, acabou por ficar indelevelmente marcado nas nossas memórias. Percebo pois, o nervoso da Joana, esperando que tudo corra pelo melhor no próximo sábado.




Publicidade na revista da própria Europa-América, bem acompanahda pelas obras de Jorge Alarcão e Konrad Spindler, um arqueólogo austríaco que escavou em Portugal no final dos anos 60 (Castro do Zambujal) e que se tornou célebre pelos estudos do Homem (neolítico) de Otzi, descoberto congelado nos Alpes.

Publicidade no Expresso

Recensão crítica no Expresso de 4 de Janeiro de 1997, acompanhada pela Mértola Islâmica do meu colega e amigo Santiago Macias, actual Presidente da Câmara da sua Moura natal

terça-feira, 26 de abril de 2016

Arte chocalheira no Monte das Pedras



Para mim o "Ti Bento" do Monte das Pedras, já há muito fazia parte do "património" local, enquanto sobrevivente do trio de trabalhadores rurais que, sob as ordens e orientação do Eng. Miguel Fernandes Soares, antigo proprietário da Herdade dos Almendres, haviam procedido aos primeiros trabalhos de re-ereção de menires do hoje muito conhecido Cromeleque dos Almendres, no início dos anos 60 do século passado. Desse grupo fez parte também o Ti Samina, desaparecido há alguns anos mas com quem tive o prazer de conviver ainda (e muito aprender) no Monte das Pedras e um outro trabalhador residente na Boa Fé, António Canaverde, que já não conheci. Aliás, há pouco mais de um ano, o malogrado Pedro Alvim, por minha sugestão, teve ainda oportunidade de "in loco", recolher o testemunho directo do Ti Bento, sobre a metodologia seguida nesses primitivos "restauros" realizados nas "Pedras Talhas" e que basicamente passaram por, apenas com recurso a instrumentos manuais (enxadas e alavancas), repôr na vertical as grandes pedras (menires) semi-tombadas pelo tempo, mas ainda com a sua base cravada na "cama" original. Apenas algum tempo depois, algures no Verão de 1964, o conjunto de menires dos Almendres seria reconhecido arqueologicamente por Henrique Leonor de Pina, que promoveria entretanto o seu levantamento topográfico e proporia a respectiva classificação.

O Ti Bento, talhando em azinho mais um badalo de chocalho. Um pisador de alho talhado também pelo Ti Bento

Mas afinal o Ti Bento, no que respeita a patrimónios, joga também noutros campeonatos... Já lhe conhecia os dotes no trabalho da madeira, através da qualidade estética de alguns detalhes decorativos nos instrumentos de trabalho por si preparados.  Ignorava, no entanto, as suas qualificações específicas no domínio da "arte chocalheira", uma arte popular recentemente reconhecida pela UNESCO (1/12/2015), como fazendo parte do Património Cultural Imaterial da Humanidade, com necessidade de salvaguarda urgente. É que o Ti Bento, conforme descobri há dias, é especialista na produção dos badalos para os característicos chocalhos, nos quais se usa em exclusivo, a madeira de "azinho", essencialmente por razões que têm que ver com a respectiva dureza e densidade, factores que se reflectirão, por sua vez, no característico efeito sonoro pretendido.

Vivendo não muito longe das Alcáçovas e sendo há muitos anos amigo do antropólogo Paulo Lima, responsável científico por esta candidatura, foi com natural curiosidade que acompanhei o seu desenvolvimento e o seu grande sucesso, não necessariamente garantido, tendo em conta a singeleza do objecto em si. Mas foi obviamente com alguma estupefacção que me deparei com mais esta aptidão do meu vizinho Bento, acrescendo como motivo de especial interesse, o facto de, neste caso, o seu  trabalho resultar da "encomenda" de uma Herdade vizinha, em vias de renovação dos "meios de sinalização" do respectivo gado vacum.


quarta-feira, 20 de abril de 2016

Ainda Santarém, revisitando a Alcáçova

Há dois dias referi-me neste Blog (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2016/04/o-novo-e-premiado-museu-diocesano-de.html) ao interessante Museu Diocesano de Santarém e por agradável coincidencia, no dia seguinte o Vitor Serrão divulgou no Facebook um seu artigo publicado há dias no Correio do Ribatejo  (cuja leitura recomendo ler aqui) sobre o novo Museu, a propósito do recente galardão que ao mesmo foi atribuído no âmbito do Prémio Europa  2016. Pessoalmente, para além da qualidade do projecto museográfico e arquitectónico (no domínio da requalificação do edificado pré-existente) gostaria de destacar o modelo de gestão da visita pública subjacente ao projecto, modelo que enquanto vulgar visitante me pareceu eficaz e sustentável, apesar de minimalista. Recordo que, muitas vezes, é neste aspecto que projectos museográficos interessantes acabam por sossobrar. Demasiada preocupação com o acto criativo em si e com a "inauguração", acaba por fazer esquecer o dia seguinte, descurando-se aquela que é a principal razão de ser dum projecto desta natureza: a relação com o público para quem é suposto dirigir-se. Neste caso, o plano de visita parece-me particularmente feliz, não esquecendo a visita à Catedral e à sacristia, e o modelo de "exploração" exequível com meios humanos restritos (tudo pode ser controlado pela recepcionista, incluindo a bem abastecida loja de souvenires) mostrando que nada foi deixado ao acaso.
São João de Alporão, o primeiro Museu de Arqueologia que visitei em toda a minha vida (certamente ainda de calções)...

Infelizmente, em Santarém, pelo que me foi dado ver em curta visita turística, abundam exemplos contrários, alguns dos quais muito pouco abonatórios para os profissionais do património, nomeadamente para os arqueólogos. A caminho da Porta do Sol (Alcáçova de Santarém) onde me interessava ver a integração de vestígios arqueológicos resultantes de prolongados projectos de investigação aí desenvolvidos, passei junto a São João de Alporão. Um sítio que para mim tem um especial significado pois é certamente o primeiro lugar chamado "Museu" em que me foi dado entrar, há mais de meio século, quando tinha pouco mais de 10 anos. As memórias desse tempo confundem-se certamente com visitas posteriores, algumas já a nível profissional (em meados dos anos 80, visitei Santarém em trabalho acompanhando o já falecido João Palma Ferreira, na altura Presidente do IPPC, visita em que o grande tema era a recuperação do Convento de São Francisco!). Mas, a imagem difusa que ainda conservo, é a de uma amálgama incoerente de pedras e inscrições, conferindo ao pequeno templo um ar de gruta de Ali Baba. Julgo que oportunamente (ou não) o Museu foi remodelado (1995, segundo consegui descobrir no "Google"...) mas, pelo o aviso improvisado que encontrei à porta, encontra-se encerrado aguardando nova reformulação. O mesmo parece acontecer logo em frente, na Torre das Cabaças, com o Museu do Tempo... Continuo a caminho da Alcáçova e a obrigatória passagem junto ao Teatro Rosa Damasceno, acaba por ser mais um sinal bem óbvio da decadencia dos nossos Centros Históricos (Évora, também tem bem no seu centro, a par de tanto comércio encerrado pela crise, o seu próprio teatro abandonado, o velho Salão Central!).
O abandonado teatro Rosa Damasceno, imagem da decadencia do centro histórico de Santarém

Apesar de tudo, neste contexto de problemas de gestão patrimonial, a situação que se me revelaria mais constrangedora, enquanto arqueólogo, viria a deparar-se-me na Alcáçova. Tendo acompanhado, à distancia e pela bibliografia, os importantes resultados científicos revelados em muitas campanhas de escavação  ali realizadas (umas preventivas outras de objectivos essencialmente científicos), que vieram confirmar a importância deste local estratégico para o controle da circulação no Tejo, desde pelo menos o início da Idade do Ferro (nos alvores do primeiro Milénio antes de Cristo, com a chegada dos Fenícios) até à época romana (Scalabis, teve um estatuto jurídico equivalente ao de Pax Julia, Beja), esperava encontrar algo que transmitisse ao público em geral essa informação relevante, não apenas para a valorização do local e da cidade, mas igualmente para o enriquecimento cultural dos visitantes. É essa a contrapartida que a Arqueologia deve à comunidade pelos recursos consumidos por quantos vivem dessa actividade. E de facto,ao aproximar-me do cuidado jardim das Portas do Sol, não me passou despercebida uma enorme mas bem integrada estrutura que adivinhei fazer parte de um projecto de valorização arqueológica de ruínas conservadas "in situ". Apesar da falta de qualquer elemento identificador ou sinalizador (o interessante desdobrável sobre o Cento Histórico de Santarém fornecido pelo turismo Municipal também nada acrescentava), não tive qualquer dúvida em para ali dirigir-me. Um equipamento de controle, já vandalizado e desactivado, instalado no acesso, confirmava que estava no caminho certo que levava a um largo varandim rodeando uma grande zona coberta, protegendo diversas estruturas arqueológicas. Mas, infelizmente, era tudo. Por mais que procurasse qualquer elemento interpretativo ou sequer identificador do que ali estava preservado, não encontrei sequer uma palavra, quanto mais uma linha. Olhando com alguma atenção, pareceu-me perceber a lógica que terá presidido à solução comunicativa. Uma caixa metálica suspensa, já oxidada pelo tempo, parecia esconder um projector de video, por certo há muito inoperacional, frente a um ecrã acrílico...Provavelmente, sempre que um visitante passava pelo equipamento de controle, aqui seria projectada a indispensável informação de apoio. Coisa que, pelo ar do equipamento, há muito que já não acontece...

Felizmente, pensei eu, a esmagadoura senão a totalidade dos muitos visitantes das Portas do Sol, delicia-se com a extraordinária vista da lezíria e, pura e simplesmente, ignora aquelas "ruínas musealizadas". E dali saí acabrunhado pela confrangedora situação. Não apenas por não ter conseguido interpretar as estruturas expostas, nem funcional nem cronologicamente (problema de arqueólogo pré-histórico), mas sobretudo por ter consciência que, dependendo do serviço onde trabalho há décadas,  e onde já fui responsável, também existem afinal situações semelhantes...




As ruínas conservadas e protegidas da Alcáçova de Santarém. Um projecto de qualidade a que falta "apenas" a indispensável interpretação.



segunda-feira, 18 de abril de 2016

O novo e premiado Museu Diocesano de Santarém e as minhas memórias de infância...

A Igreja jesuítica de Nª Sª da Conceição, actual catedral de Santarém

Por várias razões estava com vontade de visitar o novíssimo Museu Diocesano de Santarém. Não só pelos prémios já recebidos (curiosamente a recepcionista de serviço reconheceu o aumento de visitantes após o anúncio dos prémios ...), também pelas várias referencias muito elogiosas que o meu amigo Vitor Serrão, com origens familiares scalabitanas, lhe tem feito, mas sobretudo pela circunstancia de ter vivido três anos da minha vida naquele magnífico edifício que hoje alberga o museu . Como é sabido, o grande conjunto arquitectónico que integra a Igreja jesuítica de Nª Sª da Conceição, hoje Catedral de Santarém, albergou durante muitos anos o Seminário Menor do Patriarcado de Lisboa, antes da fundação da Diocese de Santarém (1975). E como tal, funcionava como internato escolar para algumas centenas (?) de miúdos, entre os 10 e os 13 anos aproximadamente. Por razões várias, também lá fui parar em  62, com dez anos de idade. Nunca reflecti muito sobre os motivos que me terão levado às minhas "manhãs submersas", uma vez que tal não resultou de nenhum imperativo externo, para além das normais influencias ambientais, tendo-me sempre preocupado mais com as consequencias dessa opção, umas positivas outras negativas. Entre as primeiras e as que agora e aqui me interessam, avulta certamente a abertura a um mundo de cultura e arte que, ao tempo e no meio social donde provinha, seria de muito difícil acesso, se não impossível, para um miúdo a quem o Liceu estava economicamente vedado. Daí que, apesar do passar das décadas, sempre que me deparo profissionalmente ou em turismo com determinadas manifestações artísticas, seja ao nível da arquitectura barroca, seja do património azulejar, seja da pintura em geral, ou até da própria música antiga, as memórias de infância dão a essas experiências, uma substancia que sem elas seriam certamente muito diferentes. Foi pois com emoção que reentrei naqueles corredores que não revisitava há meio século mas tão presentes na memória como se tivesse saído de lá ontem. Espaços naturalmente depurados por uma intervenção museológica de qualidade, pese embora alguns detalhes infelizes mas que não prejudicam o conjunto. Apesar de impossibilitado de revisitar outras áreas também presentes nas minhas lembranças, como o grande claustro Sul, (para onde dava a pequena biblioteca onde descobri as primeiras novelas juvenis ou a banda desenhada belga, com o TimTim á cabeça) a Sala dos Actos, onde tínhamos as aulas de desenho, ou o grande corredor nobre cujos painéis de azulejos eu conhecia quase de cor, imaginando os invasores franceses ali aboletados, furando os olhos dos anjos com as baionetes (como nos contavam os padres, persignado-se...), o que revi foi no entanto suficiente para despertar de sensações, em especial o reentrar no velho refeitório. Mantido intacto pela presente intervenção museológica, apesar de adaptado a espaço de exposições temporárias, quase que ainda podia sentir os cheiros da velha cozinha, de onde através do grande janelão de vidro, passavam as travessas para a rapaziada esfomeada. Lá estava o janelão do púlpito, onde alguém lia durantes os pequenos almoços, de silêncio obrigatório, uma longa novela de guerra entre turcos e cristãos e cujo nome (imagine-se) ainda consigo lembrar: O Mediterrânio em Chamas. Mas, onde por vezes, num progresso "liberal" de assinalar, se passava música clássica num velho gira-discos. E de facto, durante anos a fio foi-me difícil abstrair de um certo odor a café com leite ou mesmo a manteiga meio rançosa, sempre que ouvia o início das sinfonias de Beethoven...




O refeitório, onde pela primeira vez ouvi Beethoven ou Mozart. Ao fundo à esquerda, o púlpito de onde se fazia a leitura...

À primeira vista, e face aos dramas da contemporaneidade, dir-se-ia, um ensaio de geo-estratégia política. Mas não. Trata-se da novela sobre as guerras entre turcos e cristãos, em pleno século XVI, que há meio século nos era lida ao pequeno almoço, no velho refeitório, hoje Museu Diocesano de Santarém.


quinta-feira, 14 de abril de 2016


As ossadas da Inquisição de Évora

Um dos esqueletos recolhidos no Pátio da Inquisição (Fonte: jornal Público)

Como arqueólogo no trabalho de campo mais ligado à Pré-história, raramente tive de lidar com restos humanos osteológicos, pelo menos de forma mais ostensiva. Os tempos longos e a acidez de muitos terrenos geológicos, encarregam-se de fazer desaparecer grande parte da matéria orgânica, restando muitas vezes como vestígios antropológicos físicos apenas pequenas esquírolas ou, na melhor das hipóteses, alguns dentes. Nada de impressionante, mesmo para os mais sensíveis. E mesmo quando, com os colegas da Universidade de Liége, retomámos as investigações na Gruta do Escoural, extensamente usada no Neolítico como necrópole (ainda que mais como ossuário do que cemitério), os testemunhos remanescentes “in situ” das antigas escavações de Farinha dos Santos onde fizemos novas sondagens e recolhas  pontuais, apresentavam apenas fragmentos de alguns ossos  em desconexão anatómica e envolvidos em espessa ganga calcítica, o que lhes conferia um ar pouco ou mesmo nada tétrico.

Apesar desta experiência “antropológica” limitada, tive oportunidade ao longo da minha carreira de acompanhar dezenas de escavações, um pouco por todo o país mas especialmente no Alentejo, onde foi necessário lidar com a presença de enterramentos humanos de todas as épocas, das mais antigas às mais recentes. Tive até a possibilidade de, na qualidade de responsável do Serviço Regional de Arqueologia do Sul (1988-1990), contribuir de algum modo, para a evolução das práticas até então correntes na escavação de vestígios antropológicos, graças à colaboração então conseguida em Évora com uma “antropóloga física”, a Teresa Matos Fernandes, natural de Évora e, neste domínio, juntamente com a sua colega e actual Professora Catedrática de Coimbra, Eugénia Cunha, uma das introdutoras em Portugal das modernas práticas metodológicas. De facto a escavação de restos humanos até à publicação do regulamento de trabalhos arqueológicos de 1999 (já sob a influência do Instituto Português de Arqueologia, IPA) não obedecia a condicionalismos especiais. O arqueólogo escavava, registava e interpretava o melhor que podia e sabia os vestígios osteológicos e, na melhor das hipóteses, o antropólogo se disponível, procuraria em gabinete retirar as conclusões possíveis… O Regulamento de trabalhos arqueológicos, revisto em 1999, mais uma das heranças positivas do efémero IPA, veio finalmente determinar através do seu artigo 8º que a escavação de restos humanos fosse assegurada por especialistas (antropólogos físicos) na altura já mais numerosos, graças à escola antropológica da Universidade de Coimbra. 

Esse mesmo artigo introduzia, no entanto, uma outra nuance inesperada. Determinava que a escavação de “cemitérios históricos” ficava dependente da concordância das autoridades responsáveis… Mesmo com alguma imprecisão de conceitos, a lei portuguesa vinha pela primeira vez colocar algumas objecções a uma certa “ligeireza” com que a arqueologia portuguesa costuma(va) lidar com os “restos humanos”, tratando-os como simples artefactos ou fontes de informação arqueológica. Tal atitude, no entanto, parece estar associada a alguma aparente insensibilidade da nossa própria cultura, face ao destino dos restos mortais dos nossos antepassados, pelo menos passada a relação directa de proximidade geracional com o defunto. Ao contrário do que acontece com outras culturas, onde o “respeito” pelos restos humanos, seja qual for a sua antiguidade e até origem, é uma regra quase “fundamentalista”. Veja-se o que ainda hoje acontece em Israel onde os judeus ortodoxos se opõem, por vezes violentamente,  a toda e qualquer escavação de cariz antropológico ou os movimentos indígenas nos USA, exigindo o retorno a território sagrado, de “colecções” antropológicas há décadas depositadas em Museus. Na arqueologia portuguesa, porém, esse é quase um não assunto ainda que aqui ou ali possa aparecer alguma excepção. Recordo um facto ocorrido nos anos 80 com o meu colega José Beleza Moreira, responsável pelo Serviço Regional de ARqueologia do Centro que, na falta de meios para uma análise e estudo antropológico mais aprofundado, após a escavação das ruínas de uma capela medieval na zona do Mogadouro, se viu compelido a entregar ao Pároco local, a pedido deste, os restos osteológicos recolhidos, para que se procedesse ao respectivo funeral no cemitério actual, o que viria a acontecer com todo o ritualismo canónico. Contraditoriamente, na mesma época e ainda durante alguns anos, enquanto não foi introduzida maior exigência ao nível do acompanhamento arqueológico de muitas obras, era normal observar no meio do entulhos dos trabalhos de infra-estruturas urbanas, em particular quando estas passavam perto das igrejas ou conventos, caveiras e toda a espécie de ossadas humanas, sem que tal impressionasse os manobradores das escavadoras ou motivasse qualquer tipo de comoção religiosa ou social.

Vêm estas reflexões a propósito de um texto que, por mero acaso tomei recentemente conhecimento. Trata-se de um comentário publicado em 7 de Setembro do ano passado no BLOG “A viagem dos Argonautas” por Joaquim Palminha da Silva, um jornalista e historiador regional, há muito radicado em Évora e que infelizmente viria a falecer cerca de um mês depois. ver aqui

O malogrado jornalista reagia nesse derradeiro texto às notícias divulgadas por alguns jornais nacionais e pela própria televisão, que davam conta dos resultados de uma investigação antropológica, sobre um conjunto de vestígios osteológicos humanos recolhidos em escavações preventivas realizadas em 2007/2008 durante as obras levadas a cabo pela Fundação Eugénio de Almeida, no chamado Palácio da Inquisição, em plena acrópole eborense.  Certamente pela natureza da temática, a normal publicação de um artigo científico assinado entre outros, pela já citada antropóloga Teresa Matos Fernandes, hoje professora na Universidade de Évora, no “Journal of Anthropological Archaeology”, tinha atraído a curiosidade da comunicação social, incluindo as televisões, que se lhe referiram com algum destaque.  (ver aqui alguns exemplos:

O frontispício do artigo do Journal of Anthropological Archaeology

O artigo em causa, “The unburied prisoners from the jail of the Inquisition of Évora, Portugal”, apesar do título algo apelativo, procura interpretar com o rigor metodológico que se espera de qualquer trabalho de pesquisa científica, a documentação de natureza antropológica recolhida em diversas sondagens arqueológicas realizadas num logradouro do edifício da antiga inquisição de Évora, cenominado a partir de plantas da época, como “pátio de despejos da prisão” ou “lixeira”. Os investigadores, partindo do registo arqueológico e antropológico obtido em escavação e em laboratório, calculam o nº de indivíduos representados nas amostras escavadas, o sexo e idades aproximadas quando possível, e tentam perceber se a deposição dos respectivos restos mortais obedeceu a qualquer ritual ou tradição de natureza funerária, retirando daí as conclusões históricas possíveis. Naturalmente esta investigação, vinha acompanhada de circunstancias menos vulgares e daí a curiosidade da própria comunicação social. O envolvimento directo com as práticas da Inquisição, uma funesta instituição religiosa, ainda hoje altamente controversa, que teve precisamente em Évora o seu primeiro tribunal português (1536) e a possibilidade rara de cruzamento da informação arqueológica com os registos de arquivo da própria instituição, muito cuidadosa a identificar e documentar todos os indivíduos encarcerados.  Antes, no entanto, de abordarmos as questões levantadas pelo texto de Palminha da Silva, sintetizemos as principais conclusões deste estudo. Todos os dados disponíveis (antropológicos, arqueológicos e históricos) demonstram que foi negado qualquer tipo de ritual aos indivíduos cujos restos foram encontrados nos sectores escavados do pátio em causa. Estão em causa doze esqueletos completos e cerca de um milhar de ossos desarticulados que apontam no seu conjunto para um mínimo de mais 16 indivíduos, homens e mulheres, ainda que com maior percentagem destas. Pela posição em que foram encontrados os esqueletos, ainda em conexão anatómica, ficou demonstrado que estes foram lançados para este local como “lixo”, certamente como derradeira “punição para o corpo e sobretudo para a alma, para além da própria morte”, como destacam os autores. Estes concluem ainda, pelo cruzamento das várias fontes, que o pátio terá sido usado como lixeira entre 1568 e 1634. Depois de assinalarem que apenas uma pequena parte do fatídico pátio foi escavado, em função das necessidades da obra de recuperação do edifício da Fundação, terminam com uma proposta (que traduzimos do original em inglês) que, claramente, aponta para questões do domínio ético decorrentes de um posicionamento crítico perante os factos em presença: “Uma escavação mais alargada permitiria um melhor conhecimento deste período negro da História caracterizado por intolerância religiosa tanto em vida como após a própria morte. Mantendo viva a memória destas vítimas poderá ajudar a prevenir no futuro, réplicas destes actos ignóbeis.”

Certamente não conhecendo o trabalho original (pouco acessível e que só me chegou às mãos por deferência da própria Teresa Fernandes)  que questões veio Palminha da Silva levantar, a partir do que a comunicação social divulgou? Em primeiro lugar interroga-se sobre o eventual significado do longo período de silêncio entre a  descoberta (a escavação) e a sua revelação. Depois insurge-se contra o facto do artigo científico ter sido publicado numa revista estrangeira e em inglês. Continuando a questionar aquilo que considera como um estranho “pacto de silêncio”, Palminha da Silva interpela a Fundação Eugénio d’Almeida, proprietária actual do edifício, a Universidade de Évora, que enquadrou parte do estudo e a própria autarquia, pelo manto de silêncio que em sua opinião todos lançaram sobre o “macabro achado”.

Ressalvando alguma visão conspirativa que ressalta destas interrogações e que obviamente resultam do seu desconhecimento das práticas correntes em investigação arqueológica, (nomeadamente quando esta resulta de intervenções de natureza preventiva, como é o caso, muito exigentes em fase de “obra” mas infelizmente muito permissivas no que respeita aos prazos para tratamento e publicação dos resultados, quase sempre adiados “sine die”), interessa-nos aqui destacar sobretudo as suas considerações a propósito do “destino” que em sua opinião, devem merecer os restos humanos em causa. Dirigindo-se particularmente à autarquia, como entidade eleita representando a comunidade contemporânea, Palminha da Silva  vem afinal propôr que seja dado hoje a estes restos mortais, um tratamento humanista que vá para além do seu interesse documental e científico já demonstrado, propondo em última análise que a Câmara Municipal “garanta o abrigo e repouso dos restos mortais destes eborenses e alentejanos, avós dos nossos avós, em talhão próprio no cemitério municipal, requisitando para isso as ossadas à Fundação Eugénio de Almeida”.


E de facto, seja qual for o posicionamento religioso ou filosófico, a partir do qual a antropologia ou a arqueologia aborde a problemática dos despojos humanos que normalmente surgem nas nossas escavações, mesmo sem entrar em pressuposto ideológicos como os que decorrem do texto de Palminha da Silva, julgo que sempre lhes será devido um tratamento diferenciado, relativamente à generalidade dos artefactos com que lidamos. Essa, pelo menos é a minha posição sobre um tema que não é isento de polémica entre os próprios arqueólogos.

Pelo seu interesse como testemunho aqui transcrevo o texto de Palminha da Silva (1945-2015)

Palminha da Silva


Achado Arqueológico & insensibilidade humana
(Inquisição de Évora)
Um “achado arqueológico” acontecido em Évora nos anos 2007 e 2008 (?), durante escavações em propriedade da Fundação Eugénio de Almeida (FEA) situada na “acrópole” da cidade, depois estudado em pormenor no ano de 2013, só agora (Agosto de 2015!) veio a conhecimento público, aparentemente através de artigo na revista da especialidade em língua inglesa, Journal of Anthropological Archaeology, com a “assinatura” de três investigadores portugueses do «Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da Universidade de Coimbra», que contaram com a colaboração do Departamento de Biologia da Universidade de Évora.
O dito “achado” é constituído pelos restos mortais de 12 adultos, lançados na lixeira do extinto palácio daInquisição de Évora, hoje Fórum da Fundação Eugénio de Almeida. Segundo os investigadores, trata-se das ossadas de pessoas de origem judaica, referentes aos anos de 1568/1634, e que nem sequer foram “julgadas” pelo então Tribunal do Santo Ofício. A estes restos mortais somam-se perto de mil ossadas de mais de 16 pessoas.
A existência da prisão por simples denúncia, torturas, sofrimentos incalculáveis e morte em fogueira ateada em espaço público na cidade, no período compreendido entre 1542 e 1781, de inúmeras vítimas da intolerância religiosa levada a cabo pelo Tribunal do Santo Ofício de Évora, bem como a eventual existência de soterrados restos mortais destes desgraçados penitentes, não são um “assunto” privado de uns quantos investigadores, provavelmente em busca de itens curriculares, nem tão pouco uma questão que apenas diz respeito à FEA, seus imóveis e espaços a céu aberto.
O espírito humanista, bem como a opinião pública avisada eborense obrigam-me a colocar as questões que a seguir se expõem.
Parto do princípio de que as escavações arqueológicas em espaço privado da FEA, só devem ter sido possíveis com o consentimento da prestigiada instituição.
1) -Nesta ordem de ideias, não se percebe porque existiu um silêncio de perto de sete anos sobre o “achado”? Que se pretendeu acautelar?
2) – Os investigadores de Coimbra entendem que, publicações da sua especialidade e cientificamente fiáveis, só as estrangeiras, isto é, as anglo-saxónicas, pois as nacionais parecem-lhes talvez patuscas, sonolentas, incapazes de servir as grandes revelações arqueológicas do seu génio?
3– Naturalmente acompanhado por uma discrição inusitada da FEA, a que se fica a dever também o silêncio conivente sobre o “achado” arqueológico, por parte da Universidade de Évora?
4 – A que tipo de ignorância cultural e humanista se fica a dever o silêncio e, portanto, ausência de opinião da Câmara Municipal de Évora (CME), instituição do poder local democrático, sobre este macabro “achado”? Sobretudo, no que se refere ao respeito e dignidade que devemos aos restos mortais de pessoas que foram vítimas da intolerância e da criminalidade anti-cristã da Inquisição de Évora? Que tipo de desmemória é esta, precisamente quando a CME é gerida por membros de um partido político que, historicamente, conheceu as perseguições, a prisão, a tortura física e a morte, apenas por ter opinião política contrária ao regime da ditadura salazarista?
Que haverá de indiscutíveis novidades históricas a sacar aos restos mortais dos “justiçados” da Inquisição de Évora que, pela documentação existente e várias investigações publicadas (entre as quais sublinho a de António Borges Coelho), não sejam já conhecidas?!
Para que submeter a novos «tratos de polé» os restos mortais de pessoas martirizadas há uns quantos séculos?! Não têm o direito de descansar em paz? Porquê? – Porque eram supostamente judeus e, por isso, a “ciência” histórica deve ignorar o humaníssimo respeito pelos mortos, capitulando face às exigências da arqueologia, da antropologia e não sei mais quantas habilidades académicas?! – Os nazis alemães não justificaram de modo muito diferente as suas experiências sobre os prisioneiros dos campos de concentração…
Não pode a CME garantir o abrigo e repouso dos restos mortais destes eborenses e alentejanos, avós dos nossos avós, em talhão próprio no cemitério municipal, requisitando para isso as ossadas à FEA?
No passado, a existência das comunidades judaicas entre nós, deram ocasião à nobreza, aos eclesiásticos e à populaça de Évora de acender uma fogueira por semana, espoliando os bens dos queimados… Hoje, os restos mortais dos mártires da Inquisição, servem para arredondar currículos e municiar noticiários…

quarta-feira, 6 de abril de 2016





Uma década depois, lembrando a Teresa Gamito e a Viagem ao País das Rosas


Faz hoje, 6 de Abril, uma década (!), que um numeroso grupo de "amigos" do Museu Nacional de Arqueologia, suficiente para encher dois autocarros, partia para mais uma viagem de férias e estudo por ocasião da Páscoa. Lisboa -Munique (ou Frankfurt) e depois Teerão, voo directo da Lufthansa.
Não sendo (com muita pena), frequentador assíduo dessas viagens, as circunstancias haviam-se proporcionado para que eu e a Isabel aproveitássemos essa oportunidade rara. E, de facto valeu a pena. Por todas as razões, algumas bem tristes como recordaremos, essa foi uma viagem memorável.

Antes de mais porque, apesar de toda a retórica anti-islâmica que se instalara no pós-11 de Setembro e que viera ainda complicar as já tensas relações entre o ocidente pró-americano e o Irão, se assistia na época já a alguma distensão diplomática (que entretanto ao longo da década foi conhecendo altos e baixos, parecendo estar numa fase de acalmia com o anunciado fim das sanções). Naturalmente a visita semi-oficial de um grupo tão numeroso de turistas ocidentais, muitos deles associados pela respectiva profissão ou estatuto, à administração pública, não deixava de ter alguma repercussão local e que foi deveras notória quer na amabilidade com que fomos recebidos por todo o lado, quer nalgumas medidas de excepção, no que respeita a segurança. Mas também memorável porque o Irão é de facto um país extraordinário, em múltiplos aspectos (culturais, civilizacionais, humanos, sociais e até políticos...) completamente inesperado para a maioria dos ocidentais e, sobretudo, totalmente deformado pela imagem corrente que passa nos "media". E assim a viagem tornou-se uma permanente e imensa caixinha de surpresas para todo o grupo, do qual apenas uma pessoa já havia estado antes no Irão (mas há várias décadas) a Professora Suzanne Daveau, viúva do conhecido geógrafo português Orlando Ribeiro. Memorável ainda para a nossa condição portuguesa, ao termos ocasião de visitar, quase em peregrinação religiosa, as ruínas deixadas pelos portugueses de quinhentos na ilha de Ormuz, local estratégico de controle do golfo com o mesmo nome, hoje desgraçadamente conhecido pelos trágicos conflitos provocados pela geoestratégfia em torno das suas vastas reservas petrolíferas. 

Mas infelizmente esta extraordinária jornada acabaria por ficar também na memória de todos por um triste evento, o qual,de algum modo motiva este texto. Nas vésperas do regresso a Pportugal, quando viajávamos de autocarro para Teerão após a descoberta das extraordinárias belezas da cidade de Isfahan (depois de Kerman, Yazd ou Shiraz, não imaginávamos que algo ainda nos pudesse surpreender no Irão, mas descobrimos que estávamos enganados quando chegámos a Isfahan), a viagem seria abalada pela doença súbita de uma companheira, a amiga e arqueóloga Teresa Júdice Gamito, de origem algarvia e uma das professoras pioneiras, da fundação da respectiva Universidade. A Teresa que conhecia desde os tempos da Faculdade ( vera aqui a Teresa nas escavações do Lexim ) e com quem eu e a Isabel haviamos jantado na véspera, num restaurante "persa" (reclinados em estrados e almofadas) do centro de Isfahan, junto à gigantesca Praça Naqsh-e Jahan, acabou por não resistir, pese embora a rápida e diligente assistência médica, como o Luis Raposo (na altura Director do Museu Nacional de Arqueologia e nessa qualidade "chefe da delegação portuguesa") descreveu, em cima do acontecimento, num testemunho enviado à comunidade arqueológica portuguesa através do ARCHPORT e que abaixo transcrevemos.

O programa final para Teerão, no qual avultava ainda a visita ao Museu Arqueológico e o encontro com autoridades culturais iranianas, ainda se cumpriu mas a viajem estava definitivamente interrompida não só para a Teresa, mas para todo o grupo. Restam-nos, uma década depois, as boas lembranças dessa inesquecível jornada, nas muitas fotos que todos trouxémos, nos videos que alguns também fizeram e até num belíssimo livro bilingue que o jornalista e poeta Adalberto Alves dedicou a esta jornada, a que chamou "Viagem ao país das rosas". A respectiva versão persa ou  فارسی fārsi deve-se a Sépideh Radfar, a nossa competente e simpática guia e intérprete, há muito residente em Portugal e as ilustrações originais são da Isabel, a partir de uma série de aguarelas que dedicou à viagem e muitas das quais conservamos cuidadosamente nas paredes do Monte das Pedras.

A Teresa Gamito, à direita, ainda em Teerão no início da viagem (7 de Abril 2006), na visita ao palácio Gulistân.
A Teresa Gamito, em segundo plano meio encoberta por Luis Raposo, em entrevista a uma jornalista iraniana, com a ajuda da intérprete Sépideh, ao centro (ainda em Isfahan)

A mesa do encontro entre a delegação portuguesa e as autoridades culturais iranianas no Museu de Arqueologia de Teerão e que se transformou num momento de homenagem a Teresa Gamito.


O testemunho de Luis Raposo no ARCHPORT, redigido ainda a partir de Teerão (18 de Abril de 2006)

"A Teresa faleceu no último dia da nossa viagem, a caminho de Teerão. Faleceu como professora: tinha-se oferecido para dar explicações no autocarro do Grupo onde seguia sobre cerâmica islâmica; encontrava-se no uso da palavra há cerca de 10 minutos, com agrado de todos, quando de repente de sentiu mal; foi logo assistida (no próprio autocarro do Grupo seguia um médico); por grande sorte, o autocarro estava então próximo de uma das várias ambulância colocadas ao longo da auto-estrada entre Isfahan e Teerão. Em cerca de cinco minutos foi colocada na ambulância e levada para o hospital; se não faleceu no caminho, veio a falecer logo após a entrada nas urgências, num quadro geral de síncope cardíaca.

Aconteceu em terras iranianas, como poderia ter acontecido em qualquer outro local. Aconteceu, para descanso de todos nós, em circunstâncias da mais pronta assistência médica e temos de reconhecer e agradecer isso aos nossos parceiros e entidades médicas iranianas.

Sendo assim o que importa salientar é o simbolismo da circunstância em que aconteceu: a Teresa faleceu enquanto exercia o seu mister de arqueóloga e professora.

Chocado como estou, apenas me resta recorrer aos antigos e desejar que descanse em paz e que a terra lhe seja leve".

Notícia da homenagem promovida pela Universidade do Algarve à memória da Professora Teresa Júdice Gamito, no segundo aniversário da sua morte




Algumas memórias fotográficas da viagem de 2006

Na travessia marítima entre Bandar-e Abbas e Ormuz. Em primeiro plano a Professora Suzanne Daveau e o seu inseparável caderno de notas e esquiços

Na cisterna portuguesa de Ormuz

Mahan, Mausoléu de Shâh Nemtollah Vali

Foto de grupo nas ruínas de Persépolis

Os túmulos reais de Naqsh e Rostam

Nas pontes de Isfahan

No país das flores e dos jardins, aqui no Palácio Bagh-e Eram, em Shiraz

As Torres do Silêncio (Dakma) em Yazd, a pátria de Zaratrustra e do Zoroastrismo.

A grande contradição da sociedade iraniana, onde o evidente papel de grande relevo social da mulher contrasta (de forma incompreensível para nós) com a ortodoxia ético-religiosa dominante.

Um momento de humor na viagem...À consideração do Ministério da Administração Interna, para economizar alguns euros...







domingo, 3 de abril de 2016


A RECONQUISTA DE PALMIRA

Já por duas vezes nos referimos neste blog à dramática situação de Palmira. Primeiro, em Maio do ano passado por ocasião da ocupação da cidade "Património da Humanidade" pelos jahadistas. Então, impressionados pelas imagens de morte e destruição que começaram a circular, perante a total impotencia da comunidade internacional (para já não falar da UNESCO, tão célere a actuar quando surgem indícios de "alterações" que possam pôr em causa a autenticidade ou integridade dos monumentos que classifica...).ver aqui. Mais tarde, em Agosto, quando surgiram notícias do bárbaro assassínio de um arqueólogo, já octagenário, antigo director das ruínas de Palmira que se recusara a cooperar com os jahadistas, lembrando-nos que em Palmira afinal não estavam apenas em causa pedras antigas, mas também vidas humanas. ver aqui também

Aparentemente, o pesadelo de Palmira parece ter chegado ao fim com a reconquista da cidade pelas forças governamentais sírias, apoiadas pela força aérea russa. O primeiro sinal foi dado pela ocupação da fortaleza de Palmira, Qalaat Ib Maan, um castelo de origem árabe (Século XIII) alterado e ampliado em época otomana (Século XVII) que domina totalmente a cidade de Palmira para quem chega de Damasco e que é (era) local obrigatório para iniciar a visita turística de Palmira. Assim aconteceu na Páscoa de 2004, quando tive a sorte de lá estar com o Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia em memorável viagem a uma Síria que hoje já não existe.

Tal como nas anteriores entradas, recorri mais uma vez à extensa reportagem fotográfica da viagem de 2004, neste caso para registar algumas comparações do "antes e depois", com a ajuda de imagens largamente divulgadas na Internet nos últimos dias.



A fortaleza de Palmira (Qalaat Ibn Maan), reconquistada pelas forças governamentais, a partir da qual se deu o ataque final e a recuperação de Palmira. Um local fantástico que domina Palmira e o deserto mas que sofreu visivelmente com a guerra civil, como mostra a comparação entre a foto da situação actual (cima) e a obtida na viagem do MNA de há 12 anos.





Templo de Bel (ou Baal). Em cima a situação actual, foto divulgada pelas agências. Em baixo a foto tirada em 2004. Aparentemente esta será uma das zonas mais afectadas pelas destruições jahadistas. A "cela" do templo praticamente desapareceu mas a área envolvente parece também muito danificada.





O arco monumental (ou triunfal) no eixo principal da cidade, a "avenida das colunas". O contraste entre a situação actual (foto de cima) e a de há 12 anos é dramático.



 

Aparentemente o Teatro terá sido das estruturas menos afectadas pela guerra, talvez por ter sido usado pelos jahadistas como cenário para os trágicos assassinatos públicos de opositores. Não será fácil esquecer esses factos em futuras visitas turísticas, como a que os amigos do Museu Nacional de Arqueologia fizeram em 2004 (foto de baixo).



O Museu de Palmira, fundado em 1961,  já mostrava sinais de alguma desactualização e envelhecimento,quando o visitámos em 2004, situação que rapidamente era esquecida face à qualidade extraordinária da sua colecção de estatuária funerária, testemunho das tradições culturais e da riqueza das famílias patrícias de Palmira. A estátua destruida que se vê na foto de cima não deverá corresponder ao delicado sarcófrago que ali fotografei em 2004. Mas tendo em conta as imagens da situação actual do museu disponíveis na net, não acredito que este tenha sobrevivido...





As distancias tendem a esbater os defeitos... Aparentemente estas duas imagens, separadas por uma década e por uma ocupação vandálica e iconoclasta, não são muito diferentes. Esperemos que seja possível recuperar algumas das destruições de Palmira embora muitas sejam completamente irreparáveis. Mas que fique a memória desta loucura que, infelizmente, não é apanágio apenas de algumas regiões ou de algumas sociedades. Basta conhecer um pouco da história europeia do Século XX para confirmar isso mesmo...

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Quando a História de cruzou com a Arqueologia, nas páginas do "República"

(22 de Fevereiro de 1974)



A  primeira página do República de 22 de Fevereiro de 1974. A História a ofuscar a Arqueologia...


Já em anteriores ocasiões tirei partido neste blog de alguns "tesourinhos" jornalísticos (re)descobertos pelo Gonçalo Pereira e que, pelo seu interesse arqueológico, aquele me fizera chegar. Gonçalo Pereira é mais conhecido (pelo menos era daí que eu o conhecia) pelo seu magnífico trabalho como editor da National Geographic portuguesa, onde tem dado a conhecer a um público alargado e de uma forma que só ele é capaz, interessantes "histórias" presentes e passadas da nossa "arqueologia". Mas é também um "historiador" do jornalismo português, como descobri recentemente ao tornar-me seu "amigo no Facebook" e ao começar a seguir as curiosíssimas "caixas" jornalísticas que ele vai descobrindo e recontando de forma magistral e extremamente bem informada, cruzando-as com a história contemporânea. Foi por isso que há poucos dias me embrenhei pela leitura da última entrada do seu blog (Ecosfera) "Paradela, Valdemar, Guerra e Ribeiro dos Santos- os nomes por trás das notícias sobre "Portugal e o Futurocuja leitura aqui recomendo

Após a descrição das peripécias em torno dos preparativos da publicação da obra de Spínola, dignas (não sei se pelos factos em si se pela vivacidade do relato) de um romance à John Le Carré, o texto culmina com o equívoco ou o acaso, bem à portuguesa, que faz com que uma notícia discreta destinada às páginas interiores, para fintar a Censura, acabasse na primeira página do República com todo o destaque. Até aqui, fui seguindo atento e curioso a descrição, recordando as circunstancias tão especiais da referida edição que, mais pelo significado e contexto do que pelo conteúdo (como se viria a verificar pelo posterior comportamento do autor) tanto alvoroço provocaram naquele final de Fevereiro de 1974. E com efeito, procurando nos meus livros, lá encontrei um dos 50 000 exemplares então editados, um record absoluto na edição portuguesa, comprado numa livraria da Amadora, cujo nome já não recordo, mas bem conhecida por ser poiso habitual de pessoal do "contra". 


Naturalmente, não podia faltar no texto de Gonçalo Pereira, a reprodução da capa jornalística em causa (22 de Fevereiro de 1974) e foi então que se me produziu o "déjà vu". Eu comprara certamente aquela edição do República de há 42 anos, pois trazia aquela que para mim era a grande ainda que já esperada notícia do dia: o próximo afundamento pelas águas da Barragem do Fratel (Vila Velha de Ródão) do Complexo de Arte Rupestre do Vale do Tejo que uma larga equipa de estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, por sua livre e espontânea iniciativa, vinha estudando desde que fora descoberto no final de 1971, já com as obras da Barragem em curso. (Curiosamente, entre os muitos estudantes que haviam passado pelo Ródão, contava-se também a Manuela Rego, filha de Raúl Rego, o carismático director do "República"). 

Porque começara a dar aulas no mês anterior na Amadora, como aqui já contei, não pude acompanhar os factos que estão por trás desta notícia, e que no essencial haviam sido provocados pela visita ao Ródão do eminente pré-historiador italiano Emmanuel Anati, especialista em arte rupestre, e que culminara com uma conferencia de imprensa, julgo que no Carmo, na sede da Associação dos Arqueólogos Portugueses. É desse evento a foto superior publicada então pelo "República", na qual se reconhece, além de Anati sentado, os meus colegas de curso Francisco Sande Lemos, à esquerda e o malogrado Jorge Pinho Monteiro. à sua direita. Na outra imagem, registando a visita ao Ródão, vê-se Anati e reconheço ainda o Mário Varela Gomes, graças ao inconfundível barrete que usava à época nos trabalhos de campo. O título, a 4 colunas, "As águas da Barragem do Fratel vão inundar dentro de dias um valioso tesouro pré-histórico", apesar do dramatismo e das fotos, acabaria no entanto totalmente ofuscado, pelas circunstancias verdadeiramente históricas em causa. O outro título, apenas a 3 colunas, mas a vermelho e em corpo gigante, era afinal o (pré)anúncio da próxima queda de um regime prestes a fazer meio século.

A notícia do "República" não representou uma excepção à época. A riqueza excepcional da arte rupestre do Vale do Tejo, embora nunca pondo em causa a construção da Barragem (o conceito de avaliação de impactos ambientais das obras ainda não existia em Portugal), acabaria por provocar alguma comoção social traduzida em vários trabalhos jornalísticos. Recordo em especial, uma grande reportagem de 1972 (?), ocupando as duas páginas centrais do Diário de Lisboa, intitulada "Viagem à Pré-história", da autoria de Augusto Vilela (1935-2012). Entre os meus papéis guardo ainda as páginas de outra grande reportagem sobre o afundamento da arte rupestre do Tejo, da autoria da jornalista Angela Caires (1939-2013), mas sem elementos identificadores quer da publicação em causa (talvez do "Século Ilustrado", pelo formato e pelo uso da côr) quer da data, embora, pelo teôr, deva ser próxima da notícia do República. Pelo seu interesse historiográfico e apesar do evidente mau estado, aqui deixo a respectiva reprodução.